modular é necessário







domingo, 30 de abril de 2017

trecho do livro novo


"Ela não sabia se aquele ator estava representando com a pura energia de uma selvageria inata e espontânea, comprimida naquele momento específico do seu tempo particular, ou se aquilo tudo era fruto de um exercício de técnica bem construído e sistematizado, ao qual teria se dedicado por toda a sua existência. Pensou então se não seria a mistura de ambas as coisas, se o domínio da perfeição do gesto estaria vindo de uma sistematização do ser que se expõe, desenhada consciente e inconscientemente, acompanhada de uma extrema e eficiente capacidade de se manter tão presente, selvagemente presente, que qualquer improviso a esta altura é de uma grandiosidade no equilíbrio das forças de retenção e exteriorização das precipitações, aquelas além dos sentimentos e sensações. O fato era que toda a cena se tornava impressionante a ponto de não escapar a nenhum dos expectadores naquela imensa multidão, e nem mesmo os minúsculos movimentos de retesar e relaxar sutilmente os detalhes da sua face, fresca e ao mesmo tempo marcada, compacta de histórias e ao mesmo tempo transparente de inéditas e tão lúcidas visões.
Transitou um pouco pelos arredores do teatro depois de tudo acabado, ouvindo disfarçadamente os comentários das pessoas saídas do mesmo espetáculo, a multidão se dispersando lentamente, descendo as ruas que saíam da praça onde fica o grande edifício de 1898, palco de visão tão extraordinária que teve por uma hora e cinquenta minutos.
As pessoas se alternavam entre eufóricas e nostálgicas, na dor pelo retorno de tudo, ainda que entre esses dois estados de alma exista uma gama quase infinita de outros humores, mas assim estava conseguindo definir as coisas por ora. E fosse o que fosse, um silêncio pensativo ou falas se atropelando, tudo era uma só perplexidade, porque não é comum na vida cotidiana aquele estado de presença exacerbada como se a criatura estivesse vendo além de nossa dimensão ordinária, estágio justamente desses humores conhecidos e largamente experimentados. A impressão que um ser presente, totalmente presente dá aos demais, é de ser de outro planeta, de pertencer a uma dimensão onde a sutileza se expressa fazendo os corpos aparentarem volatilidade, um estar que rapidamente se desfaz para corporificar logo em seguida uma sequência de flashes de beleza e assombro, como neste chão destituído de heroísmos nunca foi possível."

trecho de "O medo do claro"
livro novo







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