modular é necessário







quarta-feira, 9 de outubro de 2013

silenciosa




O recomendado pelo pedreiro que faz a manutenção dessas coisas no edifício é mudança no banho. A hidromassagem vaza e o apartamento logo abaixo recebe infiltração em forma de uma enorme mancha escura por todo o teto. Será necessária a total remoção da banheira para se consertar o que fez a água escoar para onde não deveria.
Mas ela não tem dinheiro. A aposentadoria precoce, devido a um problema sério de saúde, não lhe garantiu receber quantia justa, e no meio de tanta perturbação na hora dos acordos para que esses trâmites fossem encerrados de uma vez por todas, ela achou por bem não reclamar de nada e se contentar com o estabelecido.
                  A reforma está fora de alcance. E isso muda não apenas os banhos, mas a sua principal atividade. Há exatos nove meses, a chama de ser um bicho social se apagou dentro dela, e desse modo lá se foi a vontade de ser vista ou necessária. Viver o silêncio em um mundo observado apenas pela janela ficou sendo a melhor opção. E ela encarou como trabalho, fez isso para sentir-se dona de um projeto de vida, coisa que justificaria a reclusão e a pouparia, sobretudo, de questionar o medo dos novos estímulos. Pensou nos artistas que escolhiam o isolamento como condição primeira para chegar em realização e dignidade. E ela era digna com toda a quietude, não ajudava em nada, mas não fazia mal a ninguém, não incomodava e nem divergia. Como isso era bem vindo. Estar no mundo da forma mais delicada, não pertencer a ele ostensivamente, querendo coisas, engendrando mudanças. Nunca mais, nada disso. Ela só queria dar paz e receber indiferença, aquela que nunca a cobraria de ter um pouco mais ou de parecer adequada. Estava, inclusive, ficando antiga, as roupas tratadas com carinho para que demorassem a envelhecer ficando inevitavelmente fora de moda. Mas não ligar era parte importante do desprendimento.
E foi quando assumiu a nova condição, a não dependência de aprovação, que resolveu ter um luxo e saber chamar a isso de prazer. Mandou instalar o pocinho com jatinhos de água provedores do relaxamento e então a brincadeira da vida ainda não havia acabado de todo. Duas vezes ao dia se despia e entrava no particular recanto de não dar satisfações a ninguém. Os  momentos na água seriam as sagradas horas de desfrutar ser ela mesma sem aqueles receios habituais, como quando pensava em ir à rua fazer compras. Com isso gastava também menos dinheiro, porque encontrou um divertimento ali no lugar mais escondido da casa, o banheiro bolha de indiscutível confiabilidade, onde nada escoava da pouca renda, nada era cobrado de seu tempo de fazer só o que quisesse.
No fim da tarde, quando já começava a escurecer dentro da sala de banho e esconderijo, a água parecia mais interessante. A hidromassagem era desligada e o silêncio só se quebrava com pequenos pingos, gotas diminutas, frágeis como ela mesma se via. E aí então não estava mais só em seu pequeno estar, cuidando para ocupar espaço de maneira miúda.
Mas a paz aquática estava agora ameaçada. O pedreiro dizendo que essa e aquela torneira não deveriam ser abertas jamais. E quando o homem saiu do apartamento ela se viu com o problema: o que será de meus momentos? Transitou entre os quartos e a sala por horas, refazendo contas mentalmente, até ter certeza de que as finanças não comportavam o que lhe estava sendo proposto. Teria de voltar aos banhos comuns, sem os jatinhos e bolhinhas com sons de natureza. Tudo bem, repetia, e chegou a dizer em voz alta, no tom de resignação completa.
No chá das três, pensou que seria o momento de submergir. Lembrou que vez ou outra até levava a xícara para a banheira. E lá ficava, beneficiando-se dos aromas misturados, água pura, límpida, e o chá. Erva cidreira, doce, camomila, tudo sempre calmante. Mas agora não mais a imersão, não mais o outro mundo onde os medos se molham e dissolvem escorrendo no vapor do azulejo. Bom mesmo era estar envolta no líquido quente, a água na pele que nem carinho mais espera.
Os azulejos estampados de verde musgo com pinceladas de rosa pálido são muito reconfortantes. Folhagens sobem pelas paredes com singelas florzinhas que dizem muito do novo estilo discreto, e do tipo que, mal se viu, já se esvai. São flores nubladas e derretidas, cores que nunca agridem.
E então o chá fica diferente no dia da notícia. A grande distração, afinal chamada de prazer, havia sido vetada. Restava a televisão, e era só acioná-la. Mas nada daquela chuva de cores e sons desordenados, o mau gosto das vozes como se a vida fosse só festa lhe agradava mais. Repelia tudo o que se parecesse com aquilo. Livros? Já havia experimentado mais de uma vez todos os da estante. Ginástica, talvez, mas o corpo pedia a calma dos iogues, vivida alegremente na cápsula de mergulhar. Tudo teria ido pelo ralo, tudo lhe teria sido negado por causa da mancha no banheiro alheio. Nenhum sentido.
De repente achou de grande brutalidade essa nova condição. A mulher quieta ali, pouco parou nesse tempo todo até para imaginar que existia gente no andar abaixo. A aquisição da banheira era um ato lavrado de que agora ela se bastava, tanto que a mini natureza estava garantida para não precisar atravessar o caminho de mais ninguém. Assim, a razão do acontecimento lhe escapava com gravidade. E aos poucos foi se tornando inconformada.
No dia seguinte se conteve triste nas horas do tradicional descanso. Olhou as paredes da cozinha e leu o folheto de ofertas deixado na soleira da porta. Nem o chá tinha muito sabor, em tudo faltava aquela energia que ainda a fazia pensar em ser alguém. Dessa forma, sem objetivo de agrado nos dias, ela passava a se parecer cada vez mais com as flores desbotadas nas folhagens subindo pelas paredes. E visitava com frequência seu espaço sagrado, acariciava o ladrilho onde pousava a xícara habitualmente, vendo tudo com desgosto.
As contas eram refeitas de tempos em tempos, números no caderno fazendo o mesmo percurso, mas nada de novidades. A falta de folga nas finanças ainda não tinha lhe surpreendido como dessa vez. O comedimento era encarado sem desconforto, porque precisava cada vez menos de requintes ou mimos. Estava vivendo fase de grande satisfação e podia se dizer abastada na medida em que não esbarrava em controvérsias, e por controvérsias ela entendia qualquer contato, de qualquer espécie, com qualquer pessoa.
Tentou se instalar dentro da banheira seca para tomar o chá, imaginou no fim da tarde os pingos companheiros e cantarolou uma música apreciando o eco que ali fazia. Depois viu que não precisava de música.
Tentou de tudo, ficou nua e olhou seu corpo, imaginou que era bonita, forçou ao máximo até chegar em um prazer mísero que a fizesse lembrar da entrega ao mundo impenetrável sobre o qual ninguém jamais saberia e que nunca precisaria dividir. O mergulho era, portanto, como a liberdade, era como ter segredos a mais, como criar, como se inventar. Sem o prazer das águas ela estava enredada no universo das repetições. Tinha de ficar perambulando, o dia sem quebras de acontecimentos relevantes dividindo o tempo, dando sentido às horas de sobra ao redor.
Então resolveu fingir que não sabia de nada. Abriu as torneiras, encheu a banheira e se recostou para apreciar a madrugada de uma noite em que não podia dormir. Fez isso continuadamente, certa de que nada aconteceria, afinal, o que uma mancha no teto poderia denunciar era mínimo. Se enganou.
Passou pouco tempo até que tocassem a campainha. A mulher abriu a porta assustada, não se relacionava com os moradores do prédio. O vizinho disse saber do uso da hidromassagem, porque além de ouvir o barulho da água, a mancha estava ficando mais intensa. O moço perguntou se o conserto do vazamento seria realizado e ela, tão desprevenida e sem malícia, disse a verdade, disse não ter dinheiro esperando talvez compreensão. Percebeu que ele não podia crer em tanta simplicidade para comunicar o voluntário agravamento de um problema como aquele, e que a tratou como alguém com certa debilidade. Ela preferiu abstrair esse detalhe sem se ofender, prometendo não fazer mais nada. Tudo para obter logo o alívio de fechar a porta e encerrar contato.
Mas nada parou. Chás e imersão, relaxamento e indiferença. As semanas passavam e ninguém se manifestava. Assim pensou em tudo finalmente definido, vizinho consciente das suas dificuldades, o mundo em concordância com o que ela podia fazer.
Mas chega a tarde de surpresa ainda pior do que o estranho à porta. No chão se via uma poça de água escura, água brotando de todos os cantos daquelas paredes de folhagens tão tranquilas. O líquido quase negro era espesso, tinha aspecto viscoso e começava a exalar cheiro estranho. Curiosamente passou a achar a banheira um cubículo pequeno demais. Ela queria sair dali e não conseguia, porque pisar naquele mistério seria impossível. A campainha e o telefone tocavam ao mesmo tempo, quando então viu tudo fora de controle.
Venceu a aflição do lodo, vestiu o primeiro vestido que viu pela frente, e, ainda molhada, abriu a porta. O telefone explodia, e no corredor do prédio várias pessoas a olhavam indignadas. Parecia que o vazamento tinha tomado proporções assustadoras, um cano havia se rompido e a água escura escorria pelas paredes de vários dos apartamentos. E não era o caso de se explicar, afinal fora pega no pulo, molhada e recém saída do banho causador da encrenca.
Depois de longos minutos de mal estar, sem poder se defender, chegou finalmente a hora de se recolher e planejar como limpar tudo aquilo. A banheira estava cheia, o chão alagado, a sujeira vazando para o quarto, corredor, tomando a casa.
Ficou sem ação. A campainha tocou novamente, dessa vez com gente querendo olhar o estrago, oferecendo o que deveria soar como ajuda, mas que soou muito mais como intromissão. Estavam todos loucos para ver a casa da reclusa misteriosa.
Ela disse não à expectativa geral, e a insistência de todo o prédio se juntava à dela mesma em não saber o primeiro passo para começar a organizar-se.
Até que quis voltar à proteção na hora em que o barulho das chamadas era um só grito sufocante. Passou dessa vez pela sujeira já sem nojo, não sentindo nada. E aí percebeu os sons cessando subitamente. Viu a xícara de chá esperando com o líquido frio, o próprio tanque todo frio. Como poderia ter se esquecido? Entrou novamente no banho, suspirou relaxada e abriu as torneiras todas. Viu a água transbordando, o calor voltando, e não ligou. Continuou bebendo tranquila, até que ouviu o estrondo vindo da sala e atinou na hora que era a porta sendo arrombada. O máximo que conseguiu foi no ímpeto do desagrado atirar a xícara na parede, mas logo retomou a calmaria.
O homem da manutenção apareceu e a encontrou inerte, olhar fixo para os azulejos. Constrangido, chamou várias vezes, mas não ouviu resposta.
Nesse dia, durante toda a tarde, o apartamento foi visitado pelo edifício inteiro, o recôndito sendo espiado por cada morador, todos em fila indiana no corredor dos quartos, muita organização e atenção para a apreciação da exposição. Ela era parte de inédita instalação que atraía expectadores sedentos e curiosos com o que essa mulher tão calada pode ter de mais secreto.
Os olhares eram cheios de significados, mas ela escolhia não encarar para não ter de classificar. Sabia só da pura e insensível curiosidade, morbidez exposta ali como socialmente aceitável, tentação de invadir e deixar escancarado que viver em reclusão não poderia ficar por isso mesmo. Nunca. Não neste mundo de gente normal pedindo relações, exigindo que sejamos todos razoáveis na boa vontade de participar.
A fila andava vagarosa e a estátua inerte se fixava nas flores cor de rosa, ainda de alguma forma imbuída de espírito estóico, sem baixar a cabeça, mas também sem reflexo para se cobrir. Ela se protegia, mas sabia que o fazia de um jeito incompleto. E de qualquer forma nada mais contava, a bolha havia sido estourada, o invólucro protetor das questões mais mundanas rompido para nunca mais voltar a ser o mesmo. Nem que ganhasse o dinheiro necessário para comprar outra banheira, reformar a casa toda, e nem se com isso ela ganhasse mais conforto. Agora era mesmo tudo pelo chão, junto com a água preta.
A vida ali já não era nada. O que lhe parecia ser o acabado de antes se tornava, aos poucos, o oposto da não vida deflagrada nesse dia, resultado do contato brusco com a desenfreada falta de comedimento do universo. Há nove meses ela quis dar seu último basta e agora via o nascimento da monstruosidade tão temida. Atirar aquele objeto na parede ilustrava o que já podia suspeitar de todo o esgotamento, passageiro freqüente nos dias, e então tal sentimento assumia outra importância nessa hora.
Só quando escureceu a visitação parou. No anoitecer saiu enfim do encantamento sobre o qual não havia mais nada que pretendesse compreender. Conseguiu levantar, deixar o poço gelado e alcançar a toalha, enrolar o corpo que já havia sido parte das coisas que guardaria do mundo. Cobriu-se, mesmo sabendo que nunca mais deixaria de estar exposta. Suspirou sem sentimentos, e como se fosse nada, colheu os cacos da xícara quebrada há horas. Seus cabelos voaram sobre o rosto, e como gesto natural fechou a janela deixada aberta. Era tudo inútil, já que sabia que nunca mais pararia de sentir o frio.
A água no chão permanecia. Escura, difícil, errada. Mas a água estava, ao menos, silenciosa.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Feira de Frankfurt

A Cubzac leva a obra de seus autores para a Feira do Livro de Frankfurt 2013, em outubro. A editora fará parte do stand do Brasil, país homenageado na Feira.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

entrevista - agenda

http://youtu.be/-yn902Emg-c

Crítica de Cássio Lignani sobre "O céu é meu"

melancolia e comedimento
Em O céu é meu, primeiro livro de contos de Patricia Maês, lançado neste ano pela editora CUBZAC, não há exageros. Nada está em demasia, e os contos são como receitas do inesperado, das quais o sabor deixado não revela seus elementos e provoca o leitor, abandonado em sua avidez por um pouco mais, sufocado por um prazer interrompido. Deixar-se tocar por cada um de seus contos é entregar-se ao vazio existencial e tratar de preenchê-lo pelo prazer dos sentidos, pela ruptura com um olhar naturalizado e por uma busca silenciosa e solitária por um significado.

Essa escrita comedida revela a autora não só como alguém que manipula bem a linguagem literária, mas também como uma artista que deixa entrever seu pensamento acerca da arte, em suas diversas linguagens. E por sua escrita suave e tão delicada, talvez seja possível imaginar como Patricia Maês, que tem formação musical e em artes cênicas, conduz seu processo criativo; da mesma maneira como a narradora do conto “Pianíssimo” imagina o paralelo que há entre a maneira com que um músico toca seu instrumento e sua forma de viver a vida.

À medida que a leitura avança pelos 15 contos do livro, percebe-se que a sensibilidade tem um papel fundamental para atingir certa clareza da vida. A educação estética eleva a alma, e o sublime é o meio para se atingir esse local elevado, do qual se torna possível observar a vida além da enevoada realidade cotidiana. Assim, não só em “Pianíssimo”, mas também no conto que dá nome ao livro, “O céu é meu”, e em “Retrato”, é possível encontrar a arte como espaço de liberdade, de transgressão, de cores, de fôlego, que oferece aos personagens uma chance de encontro, um caminho para o autoconhecimento, uma alternativa além da rotina pálida e pragmática.

Quando não há nenhuma menção evidente sobre a arte nas narrativas, outras experiências de efeitos semelhantes se infiltram na vida dos personagens. “Silenciosa” fala sobre a viuvez de uma mulher que, isolada e alheia ao mundo exterior a seu apartamento, recolhe-se no prazer – sensorial – de seus longos banhos. “Fragrância Liberdade” apresenta uma prisioneira que encontra no perfume sua “doçura morta”, a possibilidade de se manter sã, a liberdade que contrasta com sua prisão e o cuidado em um espaço de miséria. Em “As vozes das pedras de cada coração”, são as memórias e os segredos que vão romantizar o consumo e atrair a personagem a preencher o seu espaço vazio.

Existe uma coerência na abordagem dos contos, que parecem compor em silêncio esse lugar que compensa uma insatisfação – ainda que inconsciente. Apresentam-se também outros temas, como a infância, não só como nostalgia de um tempo de mistificação, a exemplo de “Um Navio”, mas também sua definição como tempo de liberdade e a possibilidade de revisitá-lo na música, como em “Onde mora a liberdade”, e a libertação do amor repressor dos pais, em “Quem matou quem”. O conto “Quem vive a trabalhar” trata do querer mais, da vida que se esvai no exercício cotidiano do nada, das distâncias que um é capaz de impor sobre sua memória e sobre seus próprios desejos.

Há ainda os encontros, a relação dos casais, as insatisfações veladas e a construção da cumplicidade que existe entre aqueles que de alguma maneira se amam ou se amaram, como em “A horda do bem” e “Só”. Em “Conto com sentido”, a personagem trabalha sua respiração e reflete sobre a vida serenamente em meio ao caos do trânsito e, embora demonstre todo seu autocontrole pelos exercícios de respiração, não impede que esse caos interfira em sua vida e lhe ofereça um reencontro inesperado, que sugere uma ruptura do comedimento.


Patricia Maês nos apresenta um mundo em tom melancólico, deslocado e comedido, produz o incômodo e constrói o silêncio, como se desejasse gritar.  Maria Rita Kehl, ao escrever sobre a melancolia no pensamento ocidental, rememora a relação aristotélica entre a criação e o estado de alma melancólico, que induz o artista a arriscar ao chegar ao abismo de ter sido e não ser mais, para tentar produzir um novo sentido, um novo ser[1]. João Castello, ao escrever sobre o tema tomando João Cabral como exemplo, define a melancolia como um vazio – no peito – construtivo, do qual escorre um “humor doloroso e inexplicável”, e conclui que, “se há falta, há poesia”[2]. Essa falta – melancólica – se manifesta no processo de Patricia Maês ao dar vida à sua criação. Com suavidade, a autora aos poucos toca esse mesmo vazio e o desejo de ser, fazendo escorrer sua poesia.

Esse novo ser transparece no conto “Para saber”, que nos apresenta a personagem Catarina, jovem viúva, cuja trágica vida é filtrada pelas memórias de infância da narradora. É também dessa maneira que percebemos o vazio no conto “A casa”, que aos poucos vai sendo preenchido e renovado, pois “deixar para trás é necessário”. “[...] É preciso ruptura para que possamos entender o que era o antes de acontecer o agora. E ele não se faz sem violência”, sentencia a narradora.

Os contos de “O céu é meu”, nesse sentido, oferecem um espaço para o leitor se aprofundar com sensibilidade. O resultado é um querer mais, uma insatisfação positiva – como alguém que estica o pescoço para melhor escutar uma nota, e assim, sem perceber, se desperta. Os sentidos são suspirados a cada palavra, a cada silêncio. Patricia Maês conduz seu texto como conta um segredo, oferecendo uma experiência, um encontro e um novo desejo de ser.





[1] Kehl, Maria Rita, Melancolia e criação. In: Freud, Sigmund. Luto e melancolia. Trad. Marilene Carone. São Paulo: Cosac Naify, 2011.
[2] Castello, João. Uma defesa da melancolia. Jornal Rascunho, março de 2013.

quarta-feira, 20 de março de 2013

A escritora e letrista Patrícia Maês lança o livro de contos 'O céu é meu', em Santa Tereza

Autora é mulher de Lô Borges e já participou de algumas composições do músico

André Di Bernardi Batista Mendes - Estado de Minas Publicação:20/03/2013 08:33Atualização:20/03/2013 09:58
Depois de dividir canções com Lô Borges, Patrícia se dedica à ficção (Elderth Theza/Divulgação)
Depois de dividir canções com Lô Borges, Patrícia se dedica à ficção
A escritora Patrícia Maês é paulista, mas escolheu Belo Horizonte para viver. Mulher do cantor Lô Borges – ela chegou a escrever, em parceria com o artista mineiro, cinco canções do CD 'Horizonte vertical' –, Patrícia faz nesta quarta-feira, às 19h30, o lançamento de seu primeiro livro, 'O céu é meu', no Godofredo Bar. De formação musical e teatral, Patrícia resolveu dedicar-se exclusivamente à literatura. Nos contos de 'O céu é meu', a escritora trata de situações cotidianas, sem deixar de lado um mundo onírico, cheio de labirintos e janelas que se abrem para o mistério.

A obra apresenta personagens surpreendentes, que transitam às margens da normalidade numa sociedade que não aceita desvios e é repleta de desvãos e desmandos. A questão do tempo, ou da falta dele, permeia o relato de forma pungente. Todos lutam, sem armas aparentes, pela possibilidade de manter a alma, uma alma individual, única em sua existência de descobertas.

Patrícia lança luzes sobre dores e dissabores ao mostrar pessoas simples que passaram por alguma situação de perda ou privação. Mas, ela deixa claro, existem reviravoltas possíveis. A força do espírito humano torna-se um bom combustível para o surgimento dos textos.

Influências Perto das descobertas de Katherine Mansfield, longe do banal, os textos de Patrícia carregam uma espécie de eletricidade viva. Patrícia escreve com segurança e com coragem. A tarefa não é das mais simples, pois o estilo de Patrícia Maês segue a mesma trajetória, é feito das mesmas dúvidas, dos mesmos mistérios que tanto atormentavam a também escritora Clarice Lispector. Resguardando-se as devidas proporções, a contista deixa-se levar por aquele espanto diante da vida. Os textos de Patrícia carregam boas doses de delicadeza e são cheios de surpresas.

O pequeno trecho do conto “Silenciosa”, um dos melhores do livro, resume toda a sensação de desamparo: “Viver o silêncio em um mundo observado apenas pela janela ficou sendo a melhor opção. E ela encarou como trabalho, fez isso para se sentir dona de um projeto de vida, coisa que justificaria a reclusão e a pouparia, sobretudo, de questionar o medo dos novos estímulos.” O vocábulo árido exige água.

O CÉU É MEU

Lançamento do livro de Patrícia Maês. Nesta quarta-feira, às 19h30, no Godofredo Bar, Rua Paraisópolis, 738, Santa Tereza. O livro custará R$32 nas livrarias e R$25 no lançamento. Participação musical de Rodrigo Borges e Gabriel Guedes.

A escritora e letrista Patrícia Maês lança o livro de contos 'O céu é meu', em Santa Tereza | Divirta-se

A escritora e letrista Patrícia Maês lança o livro de contos 'O céu é meu', em Santa Tereza | Divirta-se

domingo, 17 de fevereiro de 2013

trecho de "pianíssimo"


Eu tinha dezenove anos e me lembro claramente. Na ocasião os ensaios começaram a ganhar aos poucos um caráter diferente, porque grande parte do repertório pedia surdina nos instrumentos, e muito estudo dos instrumentistas. Havia o desafio de tocar pianíssimo sem perder a qualidade, a clareza do som. Costumo dizer que todo o aprendizado na música usei em outras esferas da vida, mas essa questão de aprimorar a capacidade de tocar piano com um som limpíssimo me fez criar muitos paralelos com outras atividades e é matéria de longas discussões com meus amigos músicos até hoje. O pianíssimo perfeito veio impor outras necessidades nos meus dias, como pensar certas coisas da vida acontecendo da maneira certa, justamente dependendo da capacidade de sutileza, o saber pegar e trabalhar o miúdo até deixá-lo grandioso em sua excelência.
 
 

Maya Deren


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

trecho de "silenciosa"


 
Tentou se instalar dentro da banheira seca para tomar o chá, imaginou no fim da tarde os pingos companheiros e cantarolou uma música apreciando o eco que ali fazia. Depois viu que não precisava de música.
Tentou de tudo, ficou nua e olhou seu corpo, imaginou que era bonita, forçou ao máximo até chegar em um prazer mísero que a fizesse lembrar da entrega ao mundo impenetrável sobre o qual ninguém jamais saberia e que nunca precisaria dividir. O mergulho era, portanto, como a liberdade, era como ter segredos a mais, como criar, como se inventar. Sem o prazer das águas ela estava enredada no universo das repetições. Tinha de ficar perambulando, o dia sem quebras de acontecimentos relevantes dividindo o tempo, dando sentido às horas de sobra ao redor.
 
trecho de "silenciosa", de O CÉU É MEU
 
                                                                                     Katia Chausheva

 

do bem


       Seu reduto misterioso poderia ser uma igreja como essas de Minas, porém destacada da cidade, enxertada no meio de um nada além de montanhas cercando um vale de difícil acesso. Seria um forte com paredes erigidas em nome da incidência e movimento do sol nas tardes. Longas e amarelas tardes. Arquitetura em função da luz, relevos colocados estrategicamente como alvos certos dos disparos no céu enviesado como só em tal latitude e longitude. E teria até água correndo no chão, os canais do som que é como uma fala ancestral diluída, um contar maleável abrigando múltiplos entendimentos e a natureza do infiltrado. A água fluiria por entre os corredores e salões com trabalhos incrustados em arcos, abóbodas de flores esculpidas, mosaicos e afrescos pelos muros, e um pátio com uma bica feita de bichos. Talvez como em Alhambra, que tem o pátio com o chafariz dos leões de pedra. Mas o pátio dela era aqui mesmo no meio de Minas, e então brincava com César que o chafariz seria rodeado de onças suçuaranas e lobos guarás. O lugar sempre foi todo para a luz, mas ela insistia em imaginar também o pátio nas sombras, os lobos na noite. O escuro e o líquido, o profundo inconsciente e o emocional revisitados, o passado escrito tendo a chance de soar pelo ar como música, sons contando tudo.
 
trecho de "a horda do bem", de O CÉU É MEU
 
 

retrato


Tão de repente, a imagem o fez ter sensações de desalinho, não exatamente mal estar, mas o sentimento de quem repentinamente se viu perdido por motivo sem precedentes. Era prazer e era diferente. Alimentá-lo ficando parado ali era quase como ser outra pessoa. O vermelho do jorro, o preto da ocupação, da chegada sem aviso, sem pedir aprovação. O escuro se fazia existir sem temores na aquarela, e ele inerte na frente da vitrine da galeria. Não podia dar mais nem um passo.
Ficou pensando. Seria o caso de entrar? Mas o que lhe esperava lá dentro poderia detê-lo ainda mais, perigoso arriscar. De qualquer forma sabia que agora necessitava ter a obra por perto, tanto que temeu não poder pagar por ela. Sobrava a decisão de entrar e obter a informação. Dureza admitir que virara refém da imagem, que precisaria admirar diariamente aquela combinação de cores. Um quadro, quem diria? Ele sequer identificava ainda a coisa como aquarela. Depois reparou que tudo era diluído, a despeito da força, o que o fascinou ainda mais pela aparente incongruência entre essas duas naturezas. Água, e no entanto a marca indelével, como o desejo, e no entanto as consequências das escolhas. Estava capturado. A vida passava a depender de adquirir o objeto, não havia nenhuma hipótese de isso não vir a acontecer.
 
trecho de "retrato", de O CÉU É MEU
 
 

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

para saber


Certo dia olhei interessada demais nos olhos de Catarina. Ela percebeu, parou, me encarou profundamente como se jogando uma isca. Era difícil não ser fisgada. Tive medo de ali mesmo acabar entendendo o que tanto ninguém poderia saber. O mistério ficou próximo demais, aquela dor rejeitada, e eu quis sumir naquela hora. Tinha fascinação pela moça, mas muito medo das perdas. Ainda era cedo para ver o escombro agarrando pelos flancos uma figura que para mim veio se apresentar como o oposto disso. Logo desviei o olhar e ela sentiu que nada poderia ser dito àquela criança. Então eu era como o nada, porque nem concebia conhecer o que até então havia permanecido indecifrável. Mas se havia alguém para quem ela diria sobre como via caber ela própria dentro do seu sentir, esse alguém era eu e isso ninguém precisava me dizer.

 
trecho de "para saber", de O CÉU É MEU
 
imagem - Devora Jacoby

o silêncio dela


Viver o silêncio em um mundo observado apenas pela janela ficou sendo a melhor opção. E ela encarou como trabalho, fez isso para sentir-se dona de um projeto de vida, coisa que justificaria a reclusão e a pouparia, sobretudo, de questionar o medo dos novos estímulos. Pensou nos artistas que escolhiam o isolamento como condição primeira para chegar em realização e dignidade. E ela era digna com toda a quietude, não ajudava em nada, mas não fazia mal a ninguém, não incomodava e nem divergia. Como isso era bem vindo. Estar no mundo da forma mais delicada, não pertencer a ele ostensivamente, querendo coisas, engendrando mudanças. Nunca mais, nada disso. Ela só queria dar paz e receber indiferença, aquela que nunca a cobraria de ter um pouco mais ou de parecer adequada.

 
 
trecho de "silenciosa", de O CÉU É MEU
 
house by Francesca Woodman - Providence, Rhode Island, 1976
 
 

Dorothy

 
Qualquer mulher que aspire a comportar-se como um homem,
é certo que carece de ambição.
 
Dorothy Parker

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Elizabeth

  
 
The greatest gift is the passion for reading. It is cheap, it consoles, it distracts, it excites, it gives you knowledge of the world and experience of a wide kind. It is a moral illumination.
 
 ELIZABETH HARDWICK
 
 

Doris


"Acho que muitos escritores invejam pintores porque gostamos de acreditar que é mais simples pintar uma imagem do que escrever um livro. Não é, claro! Mas é uma atividade muito atraente, tátil."

Doris Lessing, em entrevista a Hans Ulrich Obrist.

Imagem de SUNOL ALVAR

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

respiração


Há a calma e ela queria ensinar respiração. Ministrar cursos de prazer com o ar seria de nobreza absoluta. Um anúncio no jornal? Seus amigos não se interessavam pela ciência longamente sistematizada, compêndios escritos ao longo dos anos, enquanto sentia crescer a mudança, o apurar da técnica, ideias de descobertas a mais. E isso ia se desenvolvendo sem pretensão nos intervalos de qualquer atividade, anotações impulsivas nas agendas sempre à mão, aquilo que agregava mais valor ao dia e a fazia sorrir. Anotava tudo o que descobria sobre essa arte, às vezes pequenas mas significativas observações sobre como o corpo respondia a tudo. Agora ela aperta suas coxas deixando-as marcadas, inspira junto com o movimento dos dedos, em garra. Mas só a pele na pele não adianta. O movimento do ar entrando e saindo é que dá a ideia da temperatura do contato. Sim, como não acreditavam nela? Quanto prazer desperdiçado.
 
 
 
                  trecho de "conto com sentido" de O CÉU É MEU

domingo, 27 de janeiro de 2013

Festa de lançamento do livro "O CÉU É MEU", de PATRICIA MAÊS.
Sarau com leitura de textos, além de muita música.
Participação amiga dos escritores Luis Malta Louceiro e Isa Baccara.
Música de Rodrigo Borges e Gabriel Guedes.
20 de Março de 2013 - 19:30
Godofredo Bar - Rua Paraisópolis, Belo Horizonte

A estética da contenção

por Isa Baccara, escritora

Os contos de Patricia Maês não podem ser lidos com olhos forasteiros. Ou seja, olhos contaminados pela realidade prostrada; por noções gastas acerca de poder, sensualidade, anima, animus, espaço, tempo, alteridade, subjetividade, objetividade. Livre-se das expectativas pautadas na literatura vigente, na escrita do estarrecimento; não é tratamento de choque, embora conte com rupturas inesperadas, com o elemento surpresa. O mundo a ser apreendido é o mundo dos sentidos, dos sentimentos, dos sensíveis, dos delicados. Aqui, as personagens não são apenas criaturas de papel, entidades fictícias, mas, ícones do mundo interno da autora e de leitores. Deste modo, personagem, autora e leitor se tornam ponte para uma travessia possível.
É um livro sem criptografias; sem fardos; sem cargas; nele belezas emergem das ruínas; e a vida soa leve porque os contos são calmos. Eles cedem às personagens e ao leitor a chance de recriar a vida e desejos no campo da imaginação, da arte. Na esfera onde chumbo vira pluma nada é proibido, pois, é terreno onde permissividades se manifestam livremente. A autora dispensa o texto complexo, encharcado e faz a sábia opção por uma linguagem clara que se contraponha ao tema – que já é, por si só, absolutamente vasto e complexo. O resultado é um texto sem bijuterias, sem o cheiro forte dos perfumes, sem rompantes verbais e, paradoxalmente, sem previsibilidades. O discurso direto, nada de exageros metafóricos ou entulhos verbais, abre fendas que servem como pontes levando ao silêncio do próprio leitor.
Ser sublime é um ato de coragem. Sempre foi. Hoje um tanto mais. “Vou escrever esta história pra provar que eu sou sublime”, como reafirma o poeta em “Tabacaria”. Eu disse a mim mesma, já no primeiro conto: "Vou ler e me ler neste livro pra atestar se sou sublime". Sim, é o que é: um livro sublime, no sentido mais profundo do termo. Porque tem a ousadia de trazer de mundos submersos condições humanas inutilizadas, descartadas; descarte que é causa da degradação que nos assola, e aqui estamos diante de um basta. Basta ao excesso de exposição que nos levou mais do que nos deu. Basta a princípios de liberdade que se perderam nos próprios fins e ao extravasamento que se deslocou da ideia matriz desembocando em valores completamente deturpados.
É um livro sensual; uma prosa que em sua raiz estilística exacerba o brado retumbante da poética de Adélia Prado: "Erótica é a alma". Porque mostra-nos, por meio da sugestão, que sensualidade não tem qualquer relação com o explícito, mas, com o sugerido. A sugestão é mais instigante, incita os sentidos e o desejo de descoberta.
O livro de Patricia é elegante, charmoso, delicado, rico em significados profundos, cheio de silêncios bem articulados. É uma escrita cuidadosa. Cuidadosa com o leitor, cuidadosa com as personagens, cuidadosa com uma escala de valores truncada no curso dos eventos. Falta ao mundo mais charme, mais gentileza. Patricia Maês sabe disso e nos dá um livro gentil, oferece-nos um jantar generoso, sem gula. É uma anfitriã preparada, zelosa. Acostumada a receber bem as pessoas.
Este livro, caro leitor, é uma casa muito bem decorada e carregada de zelos. Reduza o ritmo, dê a si mesmo um pouco de privacidade. Leia com a memória dos esquecidos, leia como quem sofreu uma amnésia; recrie seu tempo, espaço, seu ser no tempo e no espaço. Pressinta algo desgovernado no mundo, pressinta-se desgovernado. Pare o seu mundo e entre nele – sozinho. Porque o seu mundo é só seu. Indivisível.

 

sábado, 5 de janeiro de 2013

Festa de lançamento do livro de contos "O CÉU É MEU", de PATRICIA MAÊS.
Sarau com leitura de contos e textos críticos sobre a obra, além de muita música.
Participação amiga de Luis Malta Louceiro e Isa Baccara.
Música de Rodrigo Borges e Gabriel Guedes.

 
20 de Março de 2013 - 19:30
Godofredo Bar - Rua Paraisópolis, Belo Horizonte.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Tempos de Olívia


Primeira parte - A Excelência

 

Pronto, pesquei. Uma verdade escondida que mudou a direção dos pensamentos do dia. Hoje conversando com uma amiga, ela me contava do filme onde uma mulher descobria ter apenas mais oito semanas de vida, e exclamei com tanta naturalidade: que maravilha! E eu mesma fiquei surpreendida demais. Minha amiga não comentou nada. O diagnóstico para a inveja tão exclamativa em relação ao triste destino da personagem do filme é meu cansaço sem nome, cansaço não de ofício, mas sim de existência interior para a qual não tenho visto correspondência nas coisas externas. A espiritualidade tem sido muito exercitada por aqui, mas a quietude, amiga desde sempre, não tem trazido a paz de costume. Só questionamentos que nunca deságuam em campos mais esclarecidos, propiciadores de dissolução das dúvidas e dívidas com o próximo. É período de acumulação, e tudo que chega apenas fica, fica, faz mais peso e ocupa mais espaço. Eu tenho de me livrar de coisas, para não querer mais me livrar da vida, como me pareceu ao exclamar tão favoravelmente ao enredo do filme terrível.

Com calma eu analiso o passo mais recente e sei da vantagem de saber tomar decisões nesses momentos cruciais, onde a razão importa menos do que a coragem de dizer sim ou não, de supetão, quando o momento de saltar se apresenta. O saltar. A chance de ruptura, mesmo parecendo loucura. E eu sou uma que rompe, ousa dizer o sim e o não da dissolução, do desmoronamento que pode me levar além de onde estou. Nada a declarar a quem não me entender de pronto. Mentira, tenho paciência, e tal preciosa matéria extraio também do fogo do meu talento. Serei sucinta, direta e sincera. E este é o meu momento. Meu. Ele é meu. Seguro o tempo desse acontecimento e com ele espero fazer algo por mim mesma. Nessa volta por dentro acharei o novo que no entanto sempre esteve aqui. Nada é por acaso e se largo algo, se abro os dedos e deixo o pássaro voar, é porque isso estava escrito, e escrito por mim mesma, a que inventa tudo, a que acha na lama ou na delícia pepitas garimpadas com suor de alma. Eu vou ao meu garimpo hoje sem os instrumentos de lavagem das pedras duras e feias. Vou ao meu local de tirar do chão a preciosidade, às vezes da terra seca, às vezes de pedra brutalmente cavada com minhas unhas de princesa, mas vou apenas olhar. E sei da aridez de se viver cultivando no agreste, viver do garimpo no lodo, da pesca no mangue, e de matar a sede com a água do poço cavado bem fundo. Tudo muito áspero e dramático? Nada. Minha vida é feita de saber dosar o drama, e a tragédia disso é ele não se dosar jamais na tranqüilidade. Somos criaturas que atravessam vales de sombras porque nas sombras estão as ideias, não há jeito. De luminosidade fazemos nosso caminho apenas no depois dos achados mais importantes, porque o durante é de caos, escuridão e medo. Medo de nunca achar nada melhor, medo de não ter mais as unhas que cavam e de não ter mais a sustentação na hora de escalar a pedra mais alta que nos desafia, e quando pressentimos o tesouro do dia lá em cima. O mesmo se dá para baixo, nos abismos que tememos não termos a disposição de espírito para mergulhar. Nada assusta mais do que não ter coragem suficiente, o mesmo que então não merecer tirar a espada da pedra. A coragem é nossa matéria prima, antes de qualquer outra a se apresentar. Queremos merecer mais do que ninguém, queremos a glória da ciência que desvenda, desvenda o destino e clareia a trilha nos outros vales, e isso para variadas multidões. Queremos dizer às multidões do caminho seguro e firme, onde o chão jamais cederá. Somos artistas e o que sabemos é de vidas imbuídas de missões, de gritos precedendo as grandes calamidades como que alertando às almas afins de que fomos à frente, e sabemos indicar a direção mais reta até a cobiçada grandeza de espírito. Já fomos e voltamos pelos campos do conhecimento adquirido dando a força do corpo como escudo para os males que há tanto a humanidade cansou de ver e se desviar por pura aflição, a pequeneza da qual todos se esquivam tanto, que pretendem ignorar com total afinco, fingem nem tomar conhecimento. Somos os arautos da libertação para aqueles que não dormem e não sabem, somos os gladiadores matando as feras que matariam os mais sensíveis. E assim eles podem se aproximar melhor da pedra, quando querem. E ela já está polida, carregada da proteção da beleza.  A beleza é nosso papel, e só por ela estamos aqui.

Maledicência e morte. Dificuldade e superação. Redenção pela simples crença de que quanto maiores os pecados inspecionados maior será a ventura de ter o que dizer ao próximo. Por isso procuramos no ser humano seu lado mais flagrantemente desumano, o mais cruel afirmando nada ter visto de errado no momento em que matava seu semelhante com o olhar de desprezo por sua maior agonia. É dessa invasão na alma do mal que se explica nossa incrível capacidade de doação, porque dói presenciar e narrar mediocridades. O medíocre nos agride e nem por isso passamos direto por ele. Ao contrário, vamos ter com ele e o interpelamos nas profundezas das razões mais amargamente obscuras para que suas ações se deem tão distantes da graça que desejaríamos proclamar como definitiva na vida de todos nós. Mas da miséria dele tiramos o exemplo da superação ou talvez a misericórdia de quem olha e admite uma existência diversa. É nossa a imensa dor e tantas vezes, alquebrados, pedimos clemência por ter de ver tamanha brutalidade na realidade de existir do começo ao fim, sem pausa e sem tréguas. Existir neste mundo e ser uma pessoa. A tarefa magnânima. E juramos que estamos aqui para facilitar as coisas. Que assim seja.

das tempestades - primeiro capítulo


 
 
Minha mãe pressentia coisas naquela tarde. Não sabia o que o vento ao contrário queria dizer, mas sabia, pela natureza de mulher que se emparelha com a outra, a da magia de bicho e árvores, que algo era mudança. Julgava a simplicidade do fato a partir de seu cabelo arrepiando diferente assim que soprou o vento torto, e seu corpo de mulher reagindo a uma sensação nova enquanto passava a escova tentando ajeitar o sentimento, como se eles se alinhassem junto com as mechas. Ela queria domar sua intuição, e percebeu isso logo, desistindo de escovar a sorte.
Eu estava para nascer, e sua barriga já era de nove meses. Por esse motivo, nada mais natural que forças da natureza falassem com ela de um jeito mais intimista, que os recados do vento e do mormaço fossem entregues ao seu entendimento rapidamente, suave feição do tempo fazendo na pele sensações. Ela lia nas entrelinhas dos acontecimentos, não queria racionalizar tudo e nem poderia, mas tinha nas veias a palavra “sei” correndo solta, os membros em alerta como se tivesse de agarrar uma ave que passasse de repente. Um salto e um abraço, encolhimento e aconchego, ela estava pronta.
No anoitecer o homem avisou que escolhera sair. Os barcos na prainha arrumados em fileira, pessoas de todas as idades com cenho franzido em preocupação. Não teria sido só dela o presságio. E assim foi que na noite mais alta saíram todos, e o marido puxou a mulher pela mão, sem palavras indicando que era para não ter medo.
No barco que balançava ela duvidava de coisas das mais variadas. As intenções incompreensíveis do outro , o motivo que ele teria para arrastá-la na aventura noturna. Pescaria era coisa dos homens, e na mente dela esse pensamento se misturava com outros, gerando a mesma confusão. Quanta dúvida. Olhava o marido sem captá-lo, embora entendesse até a natureza daquela viração que se anunciava. “E homem tem coração?” Pensava e não respondia... “mas diz que tem”... e sossegava só quando lembrava do desejo de sua barriga desaguar um menino. Isso porque a mulher sofre mais, padece dessas dúvidas todas e morre sempre sem resposta. Que a vida não dá fácil o repouso para aquelas que questionam, não se revela à toa nem para ela que arregala os olhos tanto e tanto, quando observa esse homem, ele na frente do barco, e justamente o primeiro a admitir em voz alta que vai chover.
Os pingos caem grossos já desde o começo, e minha mãe olha o ventre, a água que molha o invólucro da cria que está prestes a chegar, e que deve ouvir o som de cada gota.
Ela não queria estar ali. E ele sabia disso? Perguntava em segredo de si mesma, de novo.
A barriga encharcada e o barco fazendo água. Os homens esvaziaram latas de chumbinho para as tarrafas, e com essas latas jogavam a água para fora da canoa. O barco se estreitava, na maneira como ela ia sentindo. As costas mal apoiadas na madeira que era dura e  não servia para apoiar a dor. Mal estar sem descanso nos últimos dias, a espinha em fogo, e agora nem esse vento molhado, a rajada fria que de repente faz  os homens passarem a bufar como em arrependimento que não se diz. Nada disso é remédio e faz amenizar o peso. Mulher prestes a parir tem de recostar e respirar com calma, mas ela tinha o coração acelerado e tudo era de tal forma sem sentido que uma apatia a tomou de súbito, afinal de nada servia naquela hora sentir coisas, de nada servia ter sentimento em desalinho com a situação. O barco estava no meio do mar, era alta noite, e os homens lutavam contra um naufrágio. À beira do abismo ninguém reclama além de um suspiro. Nada a fazer, nada a pensar. Ela lamentava quieta, e como recurso último de sua parca vontade, escolheu não mais olhar o homem da ponta do barco, seu marido para quem não tinha mais nome para dar.
Os olhos pesavam, a água caía forte. As pálpebras escurecidas de minha mãe pareciam a conversão em sombra, do choro que de nada adiantaria ter saído. Desde o primeiro filho uma voz a acompanhava por dentro, mexendo em ferida que ela nunca queria cutucar. Deixava quieta, junto com as dúvidas, as perguntas sem resposta sobre o coração dos outros, as próprias penas, e tudo corria para dentro das latas agora. A fúria deles todos, tentando não afundar.
 
Natureza não assusta. O que amedronta é o coração dos homens. Minha mãe tinha razão para não olhar mais para frente. Abaixara-se encolhida como podia, uma concha olhando a própria barriga encharcada. Ela fez uma escolha em segredo, ficar impávida, sem julgar o balanço piorando a cada onda que pulavam e que contavam como uma a menos. Estavam indo em direção à margem. E aquilo era rio ou era mar? Ela não sentia o sal. Então chorava? Era por ter lágrima correndo que o sal se disfarçava em coisa tão natural? Nem sabia o que seus olhos aprontavam. O coração disparado era o mais importante. As batidas que nunca esqueceria assim como aquela imagem da barriga molhada. Tudo isso seria eterno.
Chegaram na praia. O homem da frente saltou primeiro do barco, olhou para ela e veio ajuda-la a se levantar. Foi então que minha mãe viu de novo o rosto de meu pai. Este agora mais interado de sua condição, a julgar pela seriedade com que a tirou de sua posição encruada, a concha respirando arfante na ponta de trás da embarcação. Os olhos de minha mãe deviam estar denunciando a viração maior ainda, o seu corpo é que precisava chover agora, de alguma forma.
Eu estava chegando, e no aguaceiro, meu pai indicou logo adiante um casebre vazio. A grávida ainda mais quieta. Outra dúvida surgia e era para a sua coleção de perguntas que não se responde. Como meu pai sabia do casebre, como aquele refúgio existia, como era fácil de repente sair da situação tão adversa?
Na salinha uma cama foi para minha mãe o que de melhor o mundo poderia lhe oferecer. Ela era grata por estar embaixo de um teto. Sua roupa molhada, seu cabelo pingando, a água que não sabia se era doce ou salgada, o som no telhado de folhas, a cor das paredes nuas, o nada que se apresentava lá dentro, todo um mundo desordenado. Ela continuava resignada, olhos escuros olhando a noite escura, sem dizer o que pensava, porque pensava demais e isso tinha finalmente de virar sentimento, caso contrário desandaria a falar. As forças teriam de ser reservadas agora a atender os mandos da natureza que dela mesma nascia, o corpo que se contorcia para que outras águas achassem seu nicho de correr, o rio caudaloso prestes a desaguar, o choro que desanuviaria por fim o medo. Medo. Medo de tudo. Tanto medo que até o momento último da sua hora, ela não soltaria um gemido sequer.
O homem veio com uma pequena vasilha e lá dentro tinha um pouco de água. Era tudo o que tínhamos, eu já então participando do evento. Foi meu pai quem ajudou minha mãe na hora mais difícil. Me puxou para fora, e ficou surpreso com o que viu. A primeira preocupação de minha mãe foi perguntar se era homem, o filho que ela queria que nunca sofresse. Mas meu pai lhe deu a notícia de que eu era mulher, e logo exclamou ser muito estranho criança nascer de bruços, com as duas mãos tampando o rosto, como quem sai sem querer sair. No fundo dos pensamentos de minha mãe, sem saber um resquício mínimo disso, havia a ideia de que era óbvio. Eu não queria ter como primeira visão neste mundo o rosto de um homem, de um ser que encerra perguntas que não se respondem, pois eu seria uma pessoa de grandes perguntas, e nunca sossegaria com a resposta de que não havia resposta. Eu seria uma mulher de solução.
Não sabiam cortar o cordão umbilical, e como meu pai estava mesmo familiarizado com a região, sabia da índia por perto que poderia ajudá-los. A mulher foi trazida, fez seu serviço, me segurou nos braços e sempre em silêncio olhava para um e para outro. Outros segredos, pensou minha mãe sem dizer, de novo, nada. E a índia entregou-me em seus braços vaticinando: essa nunca vai ter filho. Minha mãe sem dizer, mas em íntima quase oração, desejou que se fosse para sair mulher, que eu não tivesse mesmo.
O que foi previsto se cumpriu. Nunca tive filhos. Saímos daquele casebre para que eu crescesse em outros cantos, viajasse e visse muita coisa, mas de dentro de mim brotaram sempre palavras, questões, e a negação ao jeito de quem se resigna a não querer resposta. Eu pari perguntas por toda minha vida.
E é esta a vida que revejo desde o começo, como quem quer passar a limpo uma história inaugurada no mistério, nas águas escuras de uma noite virada, na lua que mudava e deixava marés inquietas. Eu procuro as respostas que ela nunca ousou reivindicar. Meus temores são de verdade. Meus olhos indagam como os de minha mãe naquela noite, e meu ventre também vive todo encharcado.