modular é necessário







domingo, 13 de novembro de 2011

O CD de meu parceiro, Lô Borges

video





Mesmo a marca de Lô Borges sendo inconfundível e havendo em cada disco seu uma referência forte de trabalhos anteriores, as transformações e descobertas são presentes em tudo de novo que aparece na produção desse artista. Esse crescimento não é algo que se observa usando como parâmetros a cena externa, como a comparação com a produção de outros artistas da mesma geração ou das gerações seguintes, e sim diferenciais que surgem dentro da evolução de seu próprio trajeto como criador de sonoridades a todo tempo surpreendentes.

Suas harmonias sempre foram elaboradas, despertando em outros ouvidos sensíveis, grande curiosidade de como nascem e se consolidam esses passeios na estrutura de cada música. Mas neste disco, que o autor resolve dedicar à geração de seu filho, aos jovens que estão aprendendo a tocar algum instrumento e a conhecer agora o universo dos sons, aparecem canções de construções baseadas em tríades, que são o fundamento para a arquitetura rica e de grande esmero que prova que lindas canções prescindem desses grandes passeios harmônicos.

Outra qualidade do disco fica evidente pela sutileza com que efeitos foram escolhidos. A simplicidade que Lô diz ter buscado neste álbum e que atingiu com brilhantismo, não é nada simples. Trata-se de uma simplicidade que só pode existir na genialidade, não a genialidade inata e sim a que é adquirida com muita experiência e longos caminhos trilhados.

O que se pode dizer de Horizonte Vertical, trabalho de sonoridades ao mesmo tempo simples e de beleza eloquente, trabalho de um rumo novo e que não nega a exuberância criativa de toda a história de Lô Borges como compositor, é que é um dos discos mais importantes de sua carreira.
Horizonte Vertical é transformador.
Os meus parabéns a todos que participaram do álbum.
Patricia Maês

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011


O sentido do que não faz sentido,
é que,
naturalmente,
isso tudo é muito sentido.


Amaro - trecho de "Olímpia"


Os dois conversam, sentados ao lado da mesa de jantar.
Amaro falava com fluência e vagar. Destacava as sílabas com cuidado e tinha a voz branda como uma cautela, uma cautela que se não significa grandes temores faz ao menos com que se caminhe devagar. Um bule em fogo médio e tampado pela metade. Amaro deixa que escape apenas o mínimo do que pode ser uma fervura, controla chamas e o vapor, quando se leva em conta o seu jeito de se expressar verbalmente. Já seus olhos são uma dúvida, qualquer coisa estarrecida com a falta de explicação para o que se dá ali. Olhos que indagam involuntariamente, e involuntariamente parecem pedir auxílio: "o que devo fazer a seguir?", "me socorra respondendo rápido!", “estarei me perdendo?", "em qual bolso deixei as chaves?”, e um infinito de perguntas diante de uma multidão que se agita e passa mirando nele. Olímpia é como o mundo exterior encarnado num só par de olhos na medida em que chega tão perto, na medida em que o segura pela mão lembrando que ainda existem nessa realidade e nesse meio material. E a realidade é que ela não é nem um pouco indiferente a nada que venha dele. Em alguns instantes parece que ultrapassa a dureza das expressões que Amaro desenha com o senho franzido, os lábios na maior parte do tempo apertados. A preocupação aos poucos pode se diluir, ela imagina, como se tivesse como entender que o mais crispado está no longínquo escuro dos pensamentos que ele ainda nem sabe que tem.
Mares agitados de águas turvas é o que aguarda por trás daquele olhar sem nome. Ela vê que há mais por trás da placidez que ele escolhe e acha conveniente tentar vestir para poder ser observado. Amaro não sabe se queria estar ali. Suspeita que sim, mas se divide entre a conquista do acontecimento de uma novidade dessa natureza, e a culpa por talvez pensar até em gostar de não corresponder ao propósito inicial de ter vindo parar em Ouro Preto.
Culpa, necessidade de isolamento, causa do isolamento, por fim de novo a culpa. Ele passeia por esses caminhos e as sensações e os motivos se alternam e repetem. Um sentimento instável, o cíclico bem estar, pontuado do que mutila a esperança e esfacela a disposição, ou seja, a real dúvida. Horrível dúvida. "Em que lugar do mundo deveria eu estar agora?", "o que faço aqui expondo meu destino de ultimamente?". Passam em revista, em seguida, os últimos pensamentos da manhã. O almoço ficando pronto e o cheiro do tempero que havia aprendido com outra pessoa, as marcas captadas pelo seu olfato, marcas de que alguém atravessara a sua vida uma vez e ensinara coisas que ficariam como quase rituais, situações que se repetiriam no cotidiano, no absoluto trivial. O tempero e as lembranças que se espalham na cozinha e na casa com a mesma intensidade de dois dentes de alho fritando na manteiga. E nesta tarde é que Olímpia vem saber dessa parte importante da vida de Amaro.
Com o olhar baixo ele começara a desfiar a pontinha do novelo que era Margot. A complexidade do sentimento culpado se deixando avistar apenas por um fio, uma sombra no canto de um muro, um ensejo através do qual se pode vislumbrar um fato de peso, uma neblina que por uns instantes se afina deixando entrever o rastro da fatalidade que o fez agora ser assim. Ele não havia ainda se conformado com aquela perda, ela constata facilmente.
Amaro se sentia culpado. Margot morta e ele vendo o seu nome como a causa do desastre. O próprio nome piscava luminoso diante da sua vista com insistência e determinação, um peso contínuo e desnecessário, óculos com lentes de grau errado, distorção das imagens.
Olímpia espera e não diz muita coisa. Amaro vai falando cada vez com mais segurança, como que reconhecendo sua interlocutora. Ela só olha fascinada.
Ele conta os percalços dos últimos dias em que estiveram juntos, ele e Margot. A discussão política, o irmão que ela amava e que pertencia ao lado errado da moeda corrente naquele mundo de valores para eles deturpados, a incabível opção do rapaz por servir convicto à ditadura.
Amaro contou sobre tudo que tanto causou estranhamento e provocou a discórdia do último dia. Se fosse possível prever que aquela batida de porta seria a última, teria sim pedido que Margot ficasse, e teria parado de exigir que esquecesse por um tempo a família.
No final tudo ficou valendo tão pouco. Tantas convicções que jurou por tanto tempo que defenderia com a própria vida se necessário. Voavam ainda na sua frente as palavras exaltadas, os quase discursos à mesa que torturavam seus jantares, as lições para que ela reavaliasse tanta alienação. Mas Margot nunca deixou de lhe dar razão, e apenas sofria por ficar na encruzilhada do problema. Entes queridos no banco dos réus, Margot sofrendo largada naquele cruzamento, e de um lado o caminho que a levaria à aceitação por parte do seu amor, do outro a benção de quem não conseguia abandonar.
Para Amaro importavam as claras e definitivas opções da companheira, assim como importava o que ele diria aos seus amigos e ao colega da pós-graduação, ao chefe do departamento, a confiança em seu meio social, mais aceitabilidade, e com ele mesmo a velha coerência. E no entanto as convicções, valores e aceitação, ficaram desmanchados. Margot saiu de casa atordoada e chorando naquela tarde para pensar um pouco sozinha, e sem querer deixou-o para sempre no próximo cruzamento, quando algo muito maior passou por cima dela. Amaro não entendeu e não se perdoou por exigir. Exigiu dela, exigiu nos últimos instantes. Depois apagou o fato de que jamais teria como adivinhar. E ninguém pode agora dizer, como tenta Olímpia, que são coisas da vida, que isso às vezes acontece. Pois para Amaro a morte não é coisa da vida, a morte com desgraça é coisa da morte mesmo.


Passaram à sala menor. Um quarto que precede o principal da casa, a primeira porta no corredor, onde dona Benícia costurava. Amaro aproveitou a grande mesa no centro, fez ali seu escritório, e espalhou por sobre o jacarandá velho e arranhado os seus papéis e fotos empilhadas, fotos amarradas por barbantes.
Amaro diz que não quer ser muito amigo de ninguém em Ouro Preto, não quer relações que ultrapassem o bom dia e o boa tarde. Sua vida mudou de um jeito que ainda não conseguiu avaliar inteiramente, e isso incomoda. Quer só o retiro, até que se encontre e se faça novamente íntimo da própria situação. Sua paciência se esgotou, e não quer saber de nada. Ele conta que não quer ver o jornal, que não quer as notícias, que a anistia veio tarde para seus três melhores amigos, que acha que os intelectuais brasileiros não estão falando neste momento do que ele realmente precisaria ouvir. Fala da necessidade de uma espécie de bálsamo, um ungüento vitalizante e de esquecimento que colocado sobre a sua cabeça alivie seus pensamentos e o peso da consciência enganada. Não quer raciocinar sobre os problemas sócio-econômicos, não quer saber das agendas culturais. Quer parar o mundo e esquecer que o tempo é sem intervalos. Herdar a casa da tia morta e ganhar o refúgio desse lugar velho foi providencial.
Olímpia compreende. Olha ao redor e vê a janela ainda com a cortina feita por dona Benícia, depois as fotos sobre a mesa. Lá fora é dia mas a casa já está sombria. Dentro do quarto o ar é parado e aquecido. As fotos sobre a mesa estão bem apoiadas e amarradas por barbantes atados com laços bem firmes. Mas na rua certamente há a brisa e o ar se deslocando, as temperaturas variando, as coisas caindo, folhas tombando das árvores, as calhas das casas enferrujando, um mundo sem estagnação.
Ela vê Amaro desejando o nada em um mundo cheio de solicitações e acontecimentos que não se pode deter. Ele precisa mesmo da solidão. Um olhar na rua é um mundo de informações, pode ser um sem fim de comunicação, um veículo de mensagens ternas ou de violência, uma prova da violência, uma provocação à violência. Viver era, antes de mais nada, ser por demais solicitado, e Amaro agora não tinha o que dar. E nem o como dar, segundo julgava.
Olímpia continuou falando bem pouco. Passou quase o tempo todo ouvindo as histórias, os motivos, reparando outras razões por seu próprio juízo, e julgando compreender. Ele chegara a lhe dizer que o destino das coisas era um simples nada e que não podia mais ter relevância dentro de seu mundo, a rota das outras pessoas. Seus valores tinham sido aniquilados, a vida começado a ser desconstruida a partir do ponto em que um dia começou justamente a ser erigida, nas bases e nas suas mais antigas convicções. Algo nele e algo dele agora não mais se movia, o coração era um músculo estanque, a mente apenas um emaranhado de bagunças e espólios das experiências ruins da sua vida recente.
A razão dessas coisas estarem sendo ditas, o que o levava a abrir sua caixa de vivências e escancarar tão em minúcias a memória daqueles fatos dos quais a dor era o único legado, Olímpia até conseguia, no seu íntimo, ter alguma idéia. Via aquilo como um espasmo ao fim de longa contrição, um instante de relaxamento e de específico descuido depois de tanta pressão interna. Amaro, por alguns instantes esparsos, era uma chaminé fumando esbaforidamente resíduos negros e tóxicos de desentendimentos nunca resolvidos, expelindo nuvens carregadas de lágrimas que ele talvez jamais tenha conseguido derramar. O vapor subia com vigor, se espalhava e lotava o ar.
A qualquer momento Amaro se recolheria de novo, guardaria a fumaça e mais os seus outros sinais de vida, ela sabia. "Talvez já esteja para acontecer", Olímpia pensava entre um e outro olhar através da janela. Com a tarde chegando ao fim talvez ele retome seu silêncio, e talvez sem maiores desculpas queira se despedir já aliviado e explicado.
Ela não deseja que a tarde acabe assim, não deseja que tudo falhe justamente quando poderia ficar mais rico e emocionante. Quem dera ter mais tempo para interagir com aquilo tudo, poder soltar os barbantes das fotos e vê-lo enfim contando um pouco sobre as coisas boas que certamente também existiram. E depois passar para o corredor, inúmeras vezes e em diversos dias, diversas visitas, dividindo as lembranças do que não viu e que são deflagradas a partir da sensibilização que causa o cheiro daquele vestíbulo com seu grande quadro de feltro azul. As imagens projetadas de leve na parede em frente, refletindo em movimento as cores e o brilho do mural de papeizinhos de chocolate, laminados finos que farfalham quando passa o vento, obra de efeitos tão genialmente intuídos, como ninguém esperaria da pessoa tão simples que foi Dona Benícia.
Sim, o quadro a salvaria. E ela o chama até o corredor, diz que quer contar uma coisa que só pode ser dita diante daqueles reflexos. Ele não responde de imediato. Silêncio. Olímpia não espera, mas caminha lentamente dessa vez, atravessa a porta lentamente, e lentamente some no escuro. “O mural não poderá refletir nada a esta hora”, ele pensa.


quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

o ser que escreve




No largo do alpendre, estanque em silêncio,
e escute dos muros uma idéia desta casa.
As paredes ressentem-se e não envolvem tumultos.
Nenhuma precipitação de barulhos ou pressa que ultrapassem
o pórtico de minha madrugada
sem deixar na soleira o que no interior não há como caber.

De fora ainda sou vaga, disperso atos, dispenso comentários,
falo abertamente no ar, e tenho bicas que deitam água,
protelando em burburinho de gotas e jorros
a displicência de ser aos quatro ventos o que se pode dar.

Dos degraus para dentro,
depois da chapeleira onde se pendura o mais frugal,
a gravidade de azulejos velhos,
caibros trincados com musgos vencendo as fendas,
eu ofereço a quem com respeito se aventura na galeria
de quadros do que já foi e do que ainda é.

No salão aquecido da lareira acesa, castiçais comemoram
e fazem brilhos nos fios de tapetes puídos,
que convidam intactos para os sonos que são dos justos.

Não há objeto obsoleto.

Cristaleiras repletas de louças que se usam,
estalam suas madeiras
com as mornas golfadas da respiração do beiral,
da floreira sem fuligem, do balanço descansado
apoiando e embalando lento um começo de vida
do que no entanto jamais envelhece.

Depois das escadas o vitral é um aquário.
Movimento e repouso sobre cômodas fartas,
que exalam sem peso a delicadeza
e o reflexo em estouro acobreado das chaves,
iluminando em pulsares vermelhos e amarelos,
abrandando o alicerce bruto, as vigas espessas,
e a tranca esquecida, esta sim sem utilidade.

No refeitório de gamelas esculpidas,
colheres e conchas em côncavo maternal,
queimam ao forno alecrins e alfazemas
soprando ares de perfumes quentes até o quintal.
A pia de lavar as mãos e o rosto mantém corrente
o fino corte de água fresca,
fluindo branda em insistência e constância,
molhando a mais seca visão.

Não há sede nas pedras, não há fim nos corredores.
Os vestíbulos umedecidos de ventos orvalhados
que todas as noites corromperam vidraças pálidas,
desfazendo barreiras mais duras,
e preservando íntegros os seus tecidos calmantes,
que garantem proteção.
Há lençóis e cortinas no dossel.
Há mantas e almofadas pelo chão.
O assoalho é de brilho e de opaco,
o teto é alto e claro, e as velas são coloridas.

Nada está fora de seu lugar.

Na outra sala espelhos escorrem de vapor.
A banheira é o tanque e refletor onde bóia espuma leve
e convida a lavar o dissabor.
Pétalas flutuam mudas, a superfície acontece plena.
No fundo só as idéias turvas,
a vista que se retirou de lembrar,
tempo que não valeu a pena.

Corredores à frente, e outros e outros.
Outras salas mais quentes, outras mais frias,
quartos vazados, sacadas de heras como franjas penduradas,
canteiros que se arrebentam de raízes que não conhecem fim.
E como limite uma inquietude latente emerge.

E o vapor condensa e escorre mais grosso.

Revela-se no espelho, uma mudança que não se pode negar.
De tão vista a casa agora é um pedido, e já exige algum som,
como se o piano no hall latejasse de tensão e expectativa.
A lenha na lareira incandesceu e já é só brasa.
Fagulhas pulam na seda da passadeira estendida e próxima.

Fogo? Ainda não.

Algo não se aguenta de tão visitado e quer expandir,
subverter a acolhida, estourar os canos,
romper as janelas e deixar que conteúdos escapem sem retorno.
O pátio chama, a árvore chama,
para ver o céu e esquecer as ruínas.

Atravesso a última porta.
E deixo-te a casa inteira, para sempre.

E deixo-me inteira.

Vou pela alameda afora vestida em penas e tintas,
para não mais mãos solitárias.
Para nunca mais portão nem cerca.
Nunca mais nenhum telhado.


2001