modular é necessário







sexta-feira, 24 de novembro de 2017

acomodação de rochas

Bom ver o Pedro Cardoso mais uma vez falando o que ninguém ainda tinha falado. Gosto de quem tem a alma na cara. 

Como nas depressões que acompanham as guerras, este é um tempo de olhar para dentro e amparar o que há de mais impenetrável e precioso, a consciência da consciência. 
Tantos se venderam e tantos estão se vendendo neste exato momento em que escrevo isso... pessoas que até já foram referência em alguma coisa nessa vida e hoje estão completamente ao rés do chão, entregues a uma espécie de masoquismo moral e valendo tão pouco, que mal podem se olhar no espelho ou se aguentar sobre as pernas.

Na hora da crise todo mundo pode mostrar a que veio, e é estranho saber que enquanto os despertos estão justamente se soltando com vigor da ilusão medíocre que os fazia ser uma engrenagem na máquina de fabricar a falta de autoestima de toda uma população, ainda tem quem esteja dando a alma, a mãe, a paz, a coerência, o sexo e a vergonha na cara em troca de algum benefício "profissional". 
É um privilégio viver este tempo, ver o que continua e o que se desfaz.

imagem - M Worral

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

O olhar

Passado... presente... passado... presente... e assim se vê o futuro... Quando olharem suas fotos de antes e depois procurem observar o que os olhos preservaram no tempo, que tipo de chama. 
Quando eu era bem jovem escrevi isso no programa de uma peça minha, comentando do que o espetáculo tratava: 
"A rejeição ao desconhecido, a dificuldade em falar das verdades boas, os sentimentos escondidos por resistências injustificadas e sempre o medo, o medo do lado oculto das coisas, da sombra do outro, da própria sombra, do silêncio e do escuro de dentro, e o medo do amor. (...) O amor por revelar, por colocar os pés do outro lado, por fazer as coisas, por olhar os medos, por saber rir de tudo no fim..."
Adoro ver que aquele texto de tanta juventude ainda poderia acompanhar uma obra minha atual, e que o tempo e os anos não são nada quando nosso propósito de vida é seguido com lealdade e sem se corromper. 
Eu agradeço por este ano. 2017 foi o ano mais importante da minha vida, por toda a transformação que veio propôr e diante da qual agora eu sei que me posicionei sem o mínimo desvio do amor que sempre desejei imprimir no meu caminho. É uma vitória. 
Hoje vi essas fotos e fiquei muito feliz ao reparar no olhar de cada imagem. Não há segredo... a vida nos leva ao que pertencemos. E há tanta beleza em todos que me cercam... tanta beleza... Quem foi que disse que a verdade está nos olhos, mesmo? Sou grata.




terça-feira, 24 de outubro de 2017

A tortura nesses tempos

A tortura nesses tempos - Patricia Maês
   Quero falar de uma história que chegou ao meu conhecimento recentemente, piorando minha inquietação com a tremenda hipocrisia a que estamos submetidos nesse país que já era. A história começa com uma moça, professora competente do ensino médio, que faz de tudo para conseguir apresentar a nossa bela língua e a literatura para adolescentes, e as insuportáveis contendas diárias que ela tem de enfrentar por causa disso. Bem, a história começa com essa professora e vai acabar com uma abertura panorâmica para o cenário geral de desconstrução da civilidade, do afeto e da subjetividade, realidade desses dias.
   O esforço da professora para não sucumbir ao desânimo não é só na sala de aula, frente à ignorância acompanhada de soberba dos seus alunos que confundem informação com sapiência, mas também frente à morbidez de um sistema que engendra a política mais perversa e o controle ideológico mais dissimulado, crescentes no âmago da direção de grande parte das escolas. 
   Olhando primeiro os alunos, um detalhe curioso é que eles repetem exaustivamente letras de músicas que se propõem a formar um discurso linear e de crítica, mas que jogam conclusões no vazio, são pretensos tratados sobre opressão, mas que claramente se contradizem, mesmo se levarmos em conta a possibilidade de uma licença poética mal sucedida aqui ou ali. Ou seja, eles nem suspeitam do que estão dizendo. Gostam de músicas que em sua superfície até tentam parecer um grito de libertação diante de certos preconceitos, mas que no fundo, em sua verborragia desenfreada por onde são vomitados conceitos mal ajambrados e contraditórios, cometem o mesmo erro que apontam nos outros, agredindo o próximo também em seus direitos, usando de violência e coação para impor suas verdades, essa ideia de verdade criada no campo de visão cada vez mais estreito de quem despreza a experiência advinda de estudos, leituras, viagens e desapego a idolatrias juvenis.          Mas os filhos do neoliberalismo, emocionalmente comprometidos pela realidade da compra e venda de princípios e sentimentos, não acreditam que por falta de conhecimento não sabem processar a quantidade de informação recebida diariamente por todos os lados, e sobretudo, não aceitam que alguém como o professor, fragilizado pelo descrédito que recebe da sociedade e pelo menor poder aquisitivo frente a tantas outras profissões de menor responsabilidade, tenha ascendência sobre eles ou mesmo autoridade naquele ou em algum outro espaço, e sobre qualquer assunto.
   A professora de que falo sofre discriminação por estar acima do peso, por não ser rica, por ter optado por um caminho na vida onde os principais ganhos são “apenas” o conhecimento, a beleza, e a generosidade de ensinar a pensar. Sofre discriminação por ter valores e interesses diferentes e talvez um pouco mais sublimes que os dos aprendizes da intolerância à sua frente, e também por ser mulher, por não ser mãe, e no fim, por ser casada com uma outra mulher. Aliás, os alunos se referem à sua companheira dizendo seu nome no masculino e no aumentativo, tentando com isso provocar sentimento de inadequação e desconforto. Só provocam tristeza. E fazem isso sem o menor constrangimento, desvalorizando a vida pessoal dos outros como se estivessem em um patamar acima da ética e ainda em condições de moralizar de acordo com suas convicções. As asperezas e as palavras de humilhação são frequentes. Sim, os jovens podem ser homofóbicos, e isso não é visto pela direção da escola como algo preocupante a ser conversado e questionado, afinal a própria diretora diz com peito estufado pelos corredores da instituição, que apoia o candidato da fúria cega e força bruta, e que ele sim, sabe o que é democracia.

   Agora vamos a um caso. A professora tenta falar, apresentar um filme trazido especialmente para enriquecer a aula do dia, uma atividade típica na sua busca por aguçar a capacidade cognitiva do aluno, proporcionando contato com a arte e gerando uma roda de compartilhamento da experiência depois. Ela está dando instrumental para que ele possa desenvolver seu senso crítico frente às informações na vida, tendo como base o seu domínio da linguagem. Ela fala do poder de discernimento das coisas que o domínio da linguagem pode dar, como facilitadora de agilidade do pensamento, como um salto à capacidade de abstração e enfim à liberdade para o uso pleno da mente. Tudo isso? Sim, oportunidades incontáveis podem surgir de metodologias de ensino que se abrem para formas de expressão diversas e para a natural curiosidade humana. A professora sabe disso, mas quem não sabe é a menina sentada ali na primeira fileira, e que não concorda que a atividade se realize. Ela simplesmente resolveu testar naquele dia qual é o limite dos seus privilégios. Resolveu não admitir que venham lhe ensinar mais nada. A professora tenta colocar o filme, e a menina então começa seu já bem conhecido deboche diante de tudo o que não sabe, caindo no riso, e levando a reboque outras colegas. Pouco tempo depois toda a classe vê as meninas caindo no chão, literalmente, como se perdendo as forças com aquela risada forte e escancaradamente depreciativa. A professora pede várias vezes para que elas se levantem, quando percebe nitidamente que o desacato é mais ousado e de uma natureza mais profunda do que uma simples bobeira infantil. As jovens acreditam que não devem respeito àquela pessoa que comanda a aula, e esse desrespeito é fomentado pela homofobia de pais e direção, por um consenso latente circulando naquele meio, de que a professora realmente não poderia jamais reagir à violação de qualquer lei, simplesmente porque está só, totalmente solitária no seu empenho por despertar sensibilidade, educação, autovalorização e dignidade. O que pode uma pessoa assim, sem nenhum apoio de nenhum lado? 
   Mas a professora fala às alunas o que pensa da cena deprimente de gente jogada no chão, usando de empáfia, zombando da dignidade, zombando da mais básica civilidade naquele contexto da aula, da mais básica educação e respeito, e diz ter nojo de quem faz isso. Em seguida se retira da classe e vai chorando à diretoria pedindo apoio para ter condições de trabalho. Só que ela não atentou para o fato de que mesmo com o tamanho da provocação vinda dos alunos, tanto tripúdio, era justamente aquela palavrinha pronunciada por ela, o nojo, que detonaria um estardalhaço monumental a ecoar sem limites pelo prédio num espaço de tempo também interminável. Aquela palavrinha dita com propriedade no meio de uma cena de discriminação aberta, foi o suficiente para que uma das alunas, afrodescendente, se levantasse da zombaria e fosse também à direção prestar uma queixa. A menina se colocou como a vítima, e disse que era racismo. 
   A diretora da escola, a que estufa o peito para apoiar o candidato da fúria cega, da tortura e morte, da intolerância religiosa, do desprezo pelas questões de gênero, da demonização dos artistas, não quis dar atenção às discriminações sofridas pela professora e preferiu desautorizá-la frente a todos aqueles que por tanto tempo a desrespeitaram e desrespeitaram sua posição de mestra daquela disciplina. 
  Terrível dizer que a professora terminou chorando novamente, um dia depois. Foi para ela mais uma violência ter de pedir desculpas a uma mãe arrogante que, incentivada pela diretora da escola, foi colocar o dedo bem no seu nariz, acusando-a de criminosa. A diretora não podia esconder o quanto estava exultante por achar uma representante finalmente, alguém que dissesse o que ela tanto gostaria de dizer àquela degenerada, se pudesse. 
   E assim tudo voltou ao normal e as aulas seguiram, com “as crianças” devidamente defendidas em sua dignidade, e defendida também a gana por opressão e subserviência, que faz parte da alma desta nação brasileira. Aqui é o lugar da hipocrisia e da adoração ao ridículo, da exaltação da ignorância como uma espécie de virtude ou como uma espécie de inocência que será recompensada um dia por algum espírito paternalista de um estado totalitário e protetor, detentor de toda a responsabilidade por determinar o que é certo e errado, deixando o rebanho correr solto e com um sentimento de segurança nunca antes experimentado. Aqui é o país que já acabou. Aqui já é ditadura. Aqui já temos inquisição, como também já temos quem venda indulgências para todos os gostos e possibilidades de pagamento. A diferença desses tempos é que a tortura que se pratica contra quem está pensando e colocando sua capacidade intelectual à disposição de um bem maior, à disposição de expandir a autonomia do pensamento e do sentimento para todos, é furtiva, acobertada, é uma tortura abjeta e avivada por essa sede mórbida de escravidão. O que não deveria acontecer já está acontecendo, só que as modalidades de açoites, choques, mutilações em vigor não precisam de nossos corpos presentes, elas vêm sendo construídas ardilosamente no suporte e estrutura de veiculação da cultura que criou os tais versos que os meninos amam, as ideias fluindo em duas mãos opostas graças aos erros de concordância da fala tosca e destituída de função poética, incapaz de conceber a mais simples das metáforas, e que não bastando fazer apologia à violência, oferece violência na própria natureza rudimentar e estúpida do palavreado. São tantas dessas palavras agrupadas grosseiramente ecoando por aí, para o deleite do povo que se compraz com sofrimento e a própria desgraça, aplaudindo euforicamente enquanto se torna mais decadente e feio. A xucrice vai soando por aí, desabonando quem tenta clarear o sentido da autoestima para as pessoas desse lugar. Essa modalidade de tortura já era prevista há tempos, um fluxo de discrepâncias e veleidades baratas inoculadas por entre nós como o veneno numa potente guerra química feita de solventes de estrutura psíquica, moral, ética e estética. Esses açoites, choques, empalamentos de agora, desarticulam o chamado à vida e à viabilidade dos afetos. Vão diretamente atacar as aspirações nobres daqueles que ainda têm dentro o que se pode chamar de espírito. 
   Os professores seguem ensinando, ainda existem e não pararam. Mas sabemos que é questão de tempo, bem pouco tempo... e no caso dessa professora em particular, sendo minha amiga, eu espero que seja pouco tempo mesmo. Bons espíritos precisam de cuidados.

22 de outubro de 2017


sábado, 19 de agosto de 2017

livro novo


"Faça teu silêncio ser maior e mais profundo que toda a miséria gritada pelos demais, e assim aplaque de forma rigorosa os efeitos nocivos do ruído maléfico. Com a força do que é visível e irrefutável, como uma explosão perene, teu silêncio porá abaixo as edificações dos egos comprometidos com a ilusão e o medo do claro."

palavras do quadro pendurado na porta do quarto de Stella, 
personagem do livro novo




sexta-feira, 16 de junho de 2017

Trecho de O MEDO DO CLARO

Trecho do livro novo, "O medo do claro".
Capítulo "O homem morto foi à festa".



                  "Um dia, os meninos cantavam uma música desconhecida, e o homem ali, interpretando sua estudada e treinada face de lúcido expectador atento, como se aquilo ao redor o tocasse ainda, coisa já tão impossível... Ela nem se deteve para observar, aquilo tudo era bem conhecido, bobagem recorrente... mas depois parou e se deu o direito de lamentar. Um homem que sabia fazer tantas coisas, lembrou-se, tantas coisas seguramente brilhantes, mas que se encolhia ao máximo do almejar o mínimo, se encolhia a aparentar desesperadamente aquilo que na realidade não trazia em seu íntimo. Um desperdício imperdoável. Se ele não perdesse tanto tempo sendo um impostor do desnecessário, teria como perceber a si mesmo, e com o carinho dignificante de permitir-se simplesmente ser o que já teve de melhor, antes que, por ter ficado tanto tempo guardado, adquirindo bolor e fungos, aquilo se transformasse em artigo morto, morto sem volta, sem nenhuma possibilidade de reanimação. “Mas não, não se pode extinguir uma energia assim!”, ela teria rebatido por toda uma vida, continuando firme seu caminhar de impavidez, desprezando as evidências de que o homem agonizava, secava.
Outros diziam há tempos: Ele está morto, como não ver? E ela justificando com o melhor de sua capacidade de argumentar a favor de seus afetos tão puros. E não se julgava tapando os olhos, e sim regando um jardim. Com um pouco do fertilizante mágico desenvolvido em seu laboratório secreto de antídotos para a mais proibida das realidades, aquilo que fingimos ser invisível, a injustiça – pronunciar baixinho - ele um dia despertaria para viver de novo como a natureza o fez.
Mas os anos se seguiam e as coisas permaneciam bem distantes daquele salto necessário que só poderia partir dele mesmo. O homem não reagia, se recusava a olhar para dentro, e apenas ia em frente com seu corpo oco cumprindo protocolos, como honrar a agenda, entrar no avião, comparecer aos compromissos, falar o texto de cumprimentos e saudações nas ocasiões apresentadas, como manda a cartilha da educação, e as palavras certas nas despedidas também, como manda a cartilha dos negócios. E junto com seu corpo oco, a se imaginar indo para a frente, circulava por aí uma emanação cansada de um espírito que não mais tinha a luz de fazer crescer qualquer coisa em direção às mais elevadas esferas da alegria fundamentada, aquela de raízes, de voo além das asas, e o que vem no meio disso tudo. E então aos poucos ela foi admitindo, mesmo a contragosto, que faltava ali a fonte da juventude real, o viço desejado por todos e que por isso mesmo o homem aprendera a maquiar em si sem poupar esforços e investimentos, e na maioria do tempo até com louvável sucesso. Sim, movimento lépido, frescor que respira, a aura que sorri. Ela esteve esse tempo todo interessada na descoberta desse mistério de beleza verdadeira, e no entanto o que ele tinha a dar era uma farsa mantida às custas de procedimentos mecânicos que retesam pele e músculos na violência de corte e costura, sem falar em injeções de toxinas paralisando as linhas de expressões adquiridas no percurso torto da vida ruminante e acomodada. O que ele tinha a oferecer era a ladainha rendida dos apelos para que nada novo lhe fosse mostrado nesta vida. Nunca mais, nada, nada do que ele já não tivesse visto, por favor. O novo era uma agressão, o desconhecido um insulto à sua alma que não estava mais lá.

E chegou o tempo dela se convencer por completo. Revolução súbita. A própria vida tratou de arrumar um jeito de sacudi-la para não ter mais dúvidas, a verdade imperou ao reclamar com grande revolta o seu lugar, e tudo o que era, enfim veio à luz. Morto, ele se consolava da febre do mundo, diante da qual não teve anticorpos e força de combate. Morto, ele tinha o que chamava de paz. A paz de acordar e abrir os olhos, todas as manhãs, só conseguindo vislumbrar cenas do passado e as insepultas desgraceiras das velhas quedas embriagadas. “Então que assim seja”, ela disse já sem a perplexidade esperada. Não era uma iniciante neste mundo de provações, e tinha a dignidade de não mover nem um mínimo músculo da face, denotando tristeza, mesmo estando por ora vencida e obrigada a relevar um infortúnio desse calibre. Fez o gesto de se levantar calmamente, abrindo a janela e deixando os papéis voarem de cima da mesa, de cima das cadeiras, se espalhando pela sala, pela varanda, flanando em círculos acompanhando o assobio da ventania que chegava anunciando chuva. Ela não correu a abraçar os papéis, a tentar resgatá-los e salvar seus conteúdos. Riu um riso estourado de quem acabara de se libertar de um vício doloroso, esse da crença inglória. Riu um riso aliviado de quem já percebeu a direção de se contornar coisas pesadas, como estagnação e miséria de coração. A saída era olhar a cratera aberta em seu peito, pela falta de correspondência a toda energia empregada enquanto plantou naquele jardim de devastações. A saída era abraçar o descampado e inventar ali outro gérmen, uma semente que brotasse de novo o louvor às fascinações, aos desejos vivos, ao que aponta o infinito. Tudo o que era necessário agora tinha um nome tão simples... e ela saiu para ver a chuva, para se preparar, afinal aquilo de nome simples viria inevitavelmente, depois dessas vivências ricas e bem sorvidas. A chuva era movimento vivo, molhava a paisagem, enquanto o chão ia drenando as sobras de tanta substância nova naquela abundância que lhe era dado ver. Ela vê, ela crê. Tudo pode ser de novo inédito. Desfazer-se nesse mar perene da receptividade é uma glória, tão certo como tudo o que existe precisa do amor."









quinta-feira, 25 de maio de 2017

Estou mais uma vez no Suplemento Literário de Minas Gerais, essa publicação tão importante para nós, artistas.
E tenho a honra de estar de novo cercada de outros brilhantes autores, como Leonardo Padura, que deu uma entrevista.
Para quem quiser ler, existe uma versão digital.
Boa leitura!

domingo, 30 de abril de 2017

trecho do livro novo


"Ela não sabia se aquele ator estava representando com a pura energia de uma selvageria inata e espontânea, comprimida naquele momento específico do seu tempo particular, ou se aquilo tudo era fruto de um exercício de técnica bem construído e sistematizado, ao qual teria se dedicado por toda a sua existência. Pensou então se não seria a mistura de ambas as coisas, se o domínio da perfeição do gesto estaria vindo de uma sistematização do ser que se expõe, desenhada consciente e inconscientemente, acompanhada de uma extrema e eficiente capacidade de se manter tão presente, selvagemente presente, que qualquer improviso a esta altura é de uma grandiosidade no equilíbrio das forças de retenção e exteriorização das precipitações, aquelas além dos sentimentos e sensações. O fato era que toda a cena se tornava impressionante a ponto de não escapar a nenhum dos expectadores naquela imensa multidão, e nem mesmo os minúsculos movimentos de retesar e relaxar sutilmente os detalhes da sua face, fresca e ao mesmo tempo marcada, compacta de histórias e ao mesmo tempo transparente de inéditas e tão lúcidas visões.
Transitou um pouco pelos arredores do teatro depois de tudo acabado, ouvindo disfarçadamente os comentários das pessoas saídas do mesmo espetáculo, a multidão se dispersando lentamente, descendo as ruas que saíam da praça onde fica o grande edifício de 1898, palco de visão tão extraordinária que teve por uma hora e cinquenta minutos.
As pessoas se alternavam entre eufóricas e nostálgicas, na dor pelo retorno de tudo, ainda que entre esses dois estados de alma exista uma gama quase infinita de outros humores, mas assim estava conseguindo definir as coisas por ora. E fosse o que fosse, um silêncio pensativo ou falas se atropelando, tudo era uma só perplexidade, porque não é comum na vida cotidiana aquele estado de presença exacerbada como se a criatura estivesse vendo além de nossa dimensão ordinária, estágio justamente desses humores conhecidos e largamente experimentados. A impressão que um ser presente, totalmente presente dá aos demais, é de ser de outro planeta, de pertencer a uma dimensão onde a sutileza se expressa fazendo os corpos aparentarem volatilidade, um estar que rapidamente se desfaz para corporificar logo em seguida uma sequência de flashes de beleza e assombro, como neste chão destituído de heroísmos nunca foi possível."

trecho de "O medo do claro"
livro novo







quarta-feira, 12 de abril de 2017

segunda-feira, 6 de março de 2017

Comentários de Fabrício Marques

TEMPOS DE OLÍVIA
Patricia Maês, passei um tempo agradável esses últimos dias lendo o “Tempos de Olívia”. Você sabe que a prosa não é bem a minha praia, então li com olhos de leitor, não de crítico.
Olívia é a escritora que cria a obra Opus 48, sobre uma compositora erudita em crise de criatividade. Nessa peça, a personagem compositora se desdobra em duas. Num certo sentido, podemos estender esse jogo de duplos para os embates de Olívia com a amiga dos tempos de escola, Ana Beatriz; de sua relação com o namorado, o jornalista Rodrigo, e com o repórter que a entrevista, Henrique; e, finalmente, seu entendimento a respeito do ídolo Nyx, que é Doug, e de Doug, que é Nyx (outros personagens são a produtora Glória Stein e a cachorra Serena).
Esses duplos encontram a possível metáfora na rotatória como signo do espelhamento, como diz Olívia, “o círculo feito para que tudo passe em volta, rodeando, contornando e adornando a existência”.
“Tempos de Olívia” é, evidentemente, uma discussão sobre o papel da arte num mundo hostil a ela, e sobretudo do artista enquanto criador. É nesse contexto que Olívia apresenta sua visão de mundo: “Somos os arautos da libertação para aqueles que não dormem e não sabem, somos os gladiadores matando as feras que matariam os mais sensíveis. E assim eles podem se aproximar melhor da pedra, quando querem. E ela já está polida, carregada da proteção da beleza. A beleza é nosso papel, e só por ela estamos aqui.”
Em um certo momento, Olívia se compara à fotógrafa Francesca Woodman: “Nós duas trabalhamos com o momento em que estamos e de repente já não estamos, e o que acontece nesse intervalo”.
Em outro momento, Olívia se identifica com a figura pintada por Gustav Klimt, o Portrait of Emilie Flöge.
Os tempos se desentendem, mas afinal se ajustam. Olívia Kimberly Romano está passando. E dá o seu recado: “Vivemos em um território difícil para os criadores? Ora, vamos deixar de bobagem. Há a vida a ser observada e isso não se esgota.”

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017


" Pausa para voltar com mais profundidade ainda no tempo, e relembrar como eu me sentia plena de possibilidades, uma visionária que até sabia mais do que os outros, muitas vezes, afinal eu era inteligente e perspicaz e tinha os exemplos de meu Nyx. Mas faltava a segurança de assumir plenamente minhas necessidades e me mostrar melhor ao mundo por ali mesmo. E as caminhadas pelo outro bairro eram frutíferas, muitas ideias me assaltavam, tanto a fazer, a música pululando ao redor, a imaginação de minhas próprias obras de arte que uma hora explodiriam para fora e eu teria coragem de mostrar a quem pudesse ver. Tudo em estado embrionário. E o mais curioso, era o quanto eu mesma me via em estado embrionário. A pessoa, a mulher, a criatura que circulava olhando, observando como que guardando de forma muito especial as impressões sempre úteis do mundo exterior, prontas para serem depois recicladas, feitas para outros fazeres. Eu estava sempre me preparando.
Havia calmaria? Ilusão. Eu era por dentro esse infinito de vontades de criação e expressão. Só por fora se passava a tranquilidade, uma paz que talvez não deixasse que ninguém desconfiasse do turbilhão interno de coisas tão intensas sendo engendradas. Sobre a maneira como eu me relacionava com a obra de Nyx, fazia de tudo para assimilar daquilo o exemplo e caminho de colher liberdade e felicidade. Eu me confundia a mim mesma, era um disparate em relação a minha própria presença. Mas se eu já era feliz, aí é um caso muito mais delicado. Não que existisse algum motivo para não ser grata por tudo o que me era dado naquele momento, afinal eu fazia as coisas que queria, tinha uma boa vida me guiando sem transtornos pelo caminho de então esperar bons acontecimentos. Mas nada do visto ao redor enquanto sentia-me ainda não inteira, me dava o júbilo perfeito e a satisfação plena que as obras de arte trariam, as coisas que preencheriam aceitavelmente meu universo que devorava, somava e ainda não sabia dar em retorno o que a tudo poderia ser retribuído. Eu estava em sono, e nesse sono a coisa boa não era exatamente o que hoje chamo de felicidade. Me faltava muito, e por isso eu buscava tanto as sensações, a sensação desse longo caminhar por outro lugar longe de minha casa, as coisas que pensava enquanto ia me cansando, ou me testando. "

trecho de Tempos de Olívia

Editora Cubzac



segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

"De cores", trecho de Tempos de Olívia



"Ele tem a habilidade de sobrepor as cores como transparências que se interpenetram sem, contudo, haver mistura. Seus planos continuam independentes. É a vontade de entrar na sua obra que me manteve ligada nas piores ocasiões. Eu recorria a algumas de suas músicas para me conformar quando a injustiça se fazia. Ele me fazia redescobrir o instinto de sobrevivência nas horas em que queria desistir de ser o que eu era, e me recobrava a alegria, a confiança de que nada era só, e sim uma grande dança harmônica. O mundo em partes se recompunha por causa da esperança na beleza à qual aquilo tudo me devolvia. Eu pensava que a desarmonia era finita só de imaginar compreender os entremeios daquelas sobreposições transparentes, como brilhos que se intercalavam, e quando conseguia me deslocar até ali, ouvir ao redor, no ambiente tomado pelas melodias fulgurantes, as camadas me envolvendo e eu no olho de um furacão que me traria de volta ao lar. Sempre o contrário do normal, de qualquer normalidade. Tirando-me de meu centro ele me devolvia ao cerne daquilo que eu desejava desde sempre ser, e que estava em mim, no meu olhar, na minha capacidade de fazer essa transposição, ficar diminuta e entrar na obra, ativar os sentidos ajustados para outra espacialidade, a sugestão daquelas harmonias desde que eu estivesse penetrando suas fases todas, vendo minha própria face espelhada enquanto eu chegava pelos meandros mais inesperados que as dissonâncias reservavam."