modular é necessário







quarta-feira, 12 de abril de 2017

segunda-feira, 6 de março de 2017

Comentários de Fabrício Marques

TEMPOS DE OLÍVIA
Patricia Maês, passei um tempo agradável esses últimos dias lendo o “Tempos de Olívia”. Você sabe que a prosa não é bem a minha praia, então li com olhos de leitor, não de crítico.
Olívia é a escritora que cria a obra Opus 48, sobre uma compositora erudita em crise de criatividade. Nessa peça, a personagem compositora se desdobra em duas. Num certo sentido, podemos estender esse jogo de duplos para os embates de Olívia com a amiga dos tempos de escola, Ana Beatriz; de sua relação com o namorado, o jornalista Rodrigo, e com o repórter que a entrevista, Henrique; e, finalmente, seu entendimento a respeito do ídolo Nyx, que é Doug, e de Doug, que é Nyx (outros personagens são a produtora Glória Stein e a cachorra Serena).
Esses duplos encontram a possível metáfora na rotatória como signo do espelhamento, como diz Olívia, “o círculo feito para que tudo passe em volta, rodeando, contornando e adornando a existência”.
“Tempos de Olívia” é, evidentemente, uma discussão sobre o papel da arte num mundo hostil a ela, e sobretudo do artista enquanto criador. É nesse contexto que Olívia apresenta sua visão de mundo: “Somos os arautos da libertação para aqueles que não dormem e não sabem, somos os gladiadores matando as feras que matariam os mais sensíveis. E assim eles podem se aproximar melhor da pedra, quando querem. E ela já está polida, carregada da proteção da beleza. A beleza é nosso papel, e só por ela estamos aqui.”
Em um certo momento, Olívia se compara à fotógrafa Francesca Woodman: “Nós duas trabalhamos com o momento em que estamos e de repente já não estamos, e o que acontece nesse intervalo”.
Em outro momento, Olívia se identifica com a figura pintada por Gustav Klimt, o Portrait of Emilie Flöge.
Os tempos se desentendem, mas afinal se ajustam. Olívia Kimberly Romano está passando. E dá o seu recado: “Vivemos em um território difícil para os criadores? Ora, vamos deixar de bobagem. Há a vida a ser observada e isso não se esgota.”

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017


" Pausa para voltar com mais profundidade ainda no tempo, e relembrar como eu me sentia plena de possibilidades, uma visionária que até sabia mais do que os outros, muitas vezes, afinal eu era inteligente e perspicaz e tinha os exemplos de meu Nyx. Mas faltava a segurança de assumir plenamente minhas necessidades e me mostrar melhor ao mundo por ali mesmo. E as caminhadas pelo outro bairro eram frutíferas, muitas ideias me assaltavam, tanto a fazer, a música pululando ao redor, a imaginação de minhas próprias obras de arte que uma hora explodiriam para fora e eu teria coragem de mostrar a quem pudesse ver. Tudo em estado embrionário. E o mais curioso, era o quanto eu mesma me via em estado embrionário. A pessoa, a mulher, a criatura que circulava olhando, observando como que guardando de forma muito especial as impressões sempre úteis do mundo exterior, prontas para serem depois recicladas, feitas para outros fazeres. Eu estava sempre me preparando.
Havia calmaria? Ilusão. Eu era por dentro esse infinito de vontades de criação e expressão. Só por fora se passava a tranquilidade, uma paz que talvez não deixasse que ninguém desconfiasse do turbilhão interno de coisas tão intensas sendo engendradas. Sobre a maneira como eu me relacionava com a obra de Nyx, fazia de tudo para assimilar daquilo o exemplo e caminho de colher liberdade e felicidade. Eu me confundia a mim mesma, era um disparate em relação a minha própria presença. Mas se eu já era feliz, aí é um caso muito mais delicado. Não que existisse algum motivo para não ser grata por tudo o que me era dado naquele momento, afinal eu fazia as coisas que queria, tinha uma boa vida me guiando sem transtornos pelo caminho de então esperar bons acontecimentos. Mas nada do visto ao redor enquanto sentia-me ainda não inteira, me dava o júbilo perfeito e a satisfação plena que as obras de arte trariam, as coisas que preencheriam aceitavelmente meu universo que devorava, somava e ainda não sabia dar em retorno o que a tudo poderia ser retribuído. Eu estava em sono, e nesse sono a coisa boa não era exatamente o que hoje chamo de felicidade. Me faltava muito, e por isso eu buscava tanto as sensações, a sensação desse longo caminhar por outro lugar longe de minha casa, as coisas que pensava enquanto ia me cansando, ou me testando. "

trecho de Tempos de Olívia

Editora Cubzac



segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

"De cores", trecho de Tempos de Olívia



"Ele tem a habilidade de sobrepor as cores como transparências que se interpenetram sem, contudo, haver mistura. Seus planos continuam independentes. É a vontade de entrar na sua obra que me manteve ligada nas piores ocasiões. Eu recorria a algumas de suas músicas para me conformar quando a injustiça se fazia. Ele me fazia redescobrir o instinto de sobrevivência nas horas em que queria desistir de ser o que eu era, e me recobrava a alegria, a confiança de que nada era só, e sim uma grande dança harmônica. O mundo em partes se recompunha por causa da esperança na beleza à qual aquilo tudo me devolvia. Eu pensava que a desarmonia era finita só de imaginar compreender os entremeios daquelas sobreposições transparentes, como brilhos que se intercalavam, e quando conseguia me deslocar até ali, ouvir ao redor, no ambiente tomado pelas melodias fulgurantes, as camadas me envolvendo e eu no olho de um furacão que me traria de volta ao lar. Sempre o contrário do normal, de qualquer normalidade. Tirando-me de meu centro ele me devolvia ao cerne daquilo que eu desejava desde sempre ser, e que estava em mim, no meu olhar, na minha capacidade de fazer essa transposição, ficar diminuta e entrar na obra, ativar os sentidos ajustados para outra espacialidade, a sugestão daquelas harmonias desde que eu estivesse penetrando suas fases todas, vendo minha própria face espelhada enquanto eu chegava pelos meandros mais inesperados que as dissonâncias reservavam."