modular é necessário







quinta-feira, 25 de maio de 2017

Estou mais uma vez no Suplemento Literário de Minas Gerais, essa publicação tão importante para nós, artistas.
E tenho a honra de estar de novo cercada de outros brilhantes autores, como Leonardo Padura, que deu uma entrevista.
Para quem quiser ler, existe uma versão digital.
Boa leitura!

domingo, 30 de abril de 2017

trecho do livro novo


"Ela não sabia se aquele ator estava representando com a pura energia de uma selvageria inata e espontânea, comprimida naquele momento específico do seu tempo particular, ou se aquilo tudo era fruto de um exercício de técnica bem construído e sistematizado, ao qual teria se dedicado por toda a sua existência. Pensou então se não seria a mistura de ambas as coisas, se o domínio da perfeição do gesto estaria vindo de uma sistematização do ser que se expõe, desenhada consciente e inconscientemente, acompanhada de uma extrema e eficiente capacidade de se manter tão presente, selvagemente presente, que qualquer improviso a esta altura é de uma grandiosidade no equilíbrio das forças de retenção e exteriorização das precipitações, aquelas além dos sentimentos e sensações. O fato era que toda a cena se tornava impressionante a ponto de não escapar a nenhum dos expectadores naquela imensa multidão, e nem mesmo os minúsculos movimentos de retesar e relaxar sutilmente os detalhes da sua face, fresca e ao mesmo tempo marcada, compacta de histórias e ao mesmo tempo transparente de inéditas e tão lúcidas visões.
Transitou um pouco pelos arredores do teatro depois de tudo acabado, ouvindo disfarçadamente os comentários das pessoas saídas do mesmo espetáculo, a multidão se dispersando lentamente, descendo as ruas que saíam da praça onde fica o grande edifício de 1898, palco de visão tão extraordinária que teve por uma hora e cinquenta minutos.
As pessoas se alternavam entre eufóricas e nostálgicas, na dor pelo retorno de tudo, ainda que entre esses dois estados de alma exista uma gama quase infinita de outros humores, mas assim estava conseguindo definir as coisas por hora, e fosse o que fosse, um silêncio pensativo ou falas se atropelando, tudo era uma só perplexidade, porque não é comum na vida cotidiana aquele estado de presença exacerbada como se a criatura estivesse vendo além de nossa dimensão ordinária, estágio justamente desses humores conhecidos e largamente experimentados. A impressão que um ser presente, totalmente presente dá aos demais é de ser de outro planeta, de pertencer a uma dimensão onde a sutileza se expressa fazendo os corpos aparentarem volatilidade, um estar que rapidamente se desfaz para corporificar logo em seguida uma sequência de flashes de beleza e assombro, como neste chão destituído de heroísmos nunca foi possível."

trecho de "O medo do claro"
livro novo







quarta-feira, 12 de abril de 2017

segunda-feira, 6 de março de 2017

Comentários de Fabrício Marques

TEMPOS DE OLÍVIA
Patricia Maês, passei um tempo agradável esses últimos dias lendo o “Tempos de Olívia”. Você sabe que a prosa não é bem a minha praia, então li com olhos de leitor, não de crítico.
Olívia é a escritora que cria a obra Opus 48, sobre uma compositora erudita em crise de criatividade. Nessa peça, a personagem compositora se desdobra em duas. Num certo sentido, podemos estender esse jogo de duplos para os embates de Olívia com a amiga dos tempos de escola, Ana Beatriz; de sua relação com o namorado, o jornalista Rodrigo, e com o repórter que a entrevista, Henrique; e, finalmente, seu entendimento a respeito do ídolo Nyx, que é Doug, e de Doug, que é Nyx (outros personagens são a produtora Glória Stein e a cachorra Serena).
Esses duplos encontram a possível metáfora na rotatória como signo do espelhamento, como diz Olívia, “o círculo feito para que tudo passe em volta, rodeando, contornando e adornando a existência”.
“Tempos de Olívia” é, evidentemente, uma discussão sobre o papel da arte num mundo hostil a ela, e sobretudo do artista enquanto criador. É nesse contexto que Olívia apresenta sua visão de mundo: “Somos os arautos da libertação para aqueles que não dormem e não sabem, somos os gladiadores matando as feras que matariam os mais sensíveis. E assim eles podem se aproximar melhor da pedra, quando querem. E ela já está polida, carregada da proteção da beleza. A beleza é nosso papel, e só por ela estamos aqui.”
Em um certo momento, Olívia se compara à fotógrafa Francesca Woodman: “Nós duas trabalhamos com o momento em que estamos e de repente já não estamos, e o que acontece nesse intervalo”.
Em outro momento, Olívia se identifica com a figura pintada por Gustav Klimt, o Portrait of Emilie Flöge.
Os tempos se desentendem, mas afinal se ajustam. Olívia Kimberly Romano está passando. E dá o seu recado: “Vivemos em um território difícil para os criadores? Ora, vamos deixar de bobagem. Há a vida a ser observada e isso não se esgota.”

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017


" Pausa para voltar com mais profundidade ainda no tempo, e relembrar como eu me sentia plena de possibilidades, uma visionária que até sabia mais do que os outros, muitas vezes, afinal eu era inteligente e perspicaz e tinha os exemplos de meu Nyx. Mas faltava a segurança de assumir plenamente minhas necessidades e me mostrar melhor ao mundo por ali mesmo. E as caminhadas pelo outro bairro eram frutíferas, muitas ideias me assaltavam, tanto a fazer, a música pululando ao redor, a imaginação de minhas próprias obras de arte que uma hora explodiriam para fora e eu teria coragem de mostrar a quem pudesse ver. Tudo em estado embrionário. E o mais curioso, era o quanto eu mesma me via em estado embrionário. A pessoa, a mulher, a criatura que circulava olhando, observando como que guardando de forma muito especial as impressões sempre úteis do mundo exterior, prontas para serem depois recicladas, feitas para outros fazeres. Eu estava sempre me preparando.
Havia calmaria? Ilusão. Eu era por dentro esse infinito de vontades de criação e expressão. Só por fora se passava a tranquilidade, uma paz que talvez não deixasse que ninguém desconfiasse do turbilhão interno de coisas tão intensas sendo engendradas. Sobre a maneira como eu me relacionava com a obra de Nyx, fazia de tudo para assimilar daquilo o exemplo e caminho de colher liberdade e felicidade. Eu me confundia a mim mesma, era um disparate em relação a minha própria presença. Mas se eu já era feliz, aí é um caso muito mais delicado. Não que existisse algum motivo para não ser grata por tudo o que me era dado naquele momento, afinal eu fazia as coisas que queria, tinha uma boa vida me guiando sem transtornos pelo caminho de então esperar bons acontecimentos. Mas nada do visto ao redor enquanto sentia-me ainda não inteira, me dava o júbilo perfeito e a satisfação plena que as obras de arte trariam, as coisas que preencheriam aceitavelmente meu universo que devorava, somava e ainda não sabia dar em retorno o que a tudo poderia ser retribuído. Eu estava em sono, e nesse sono a coisa boa não era exatamente o que hoje chamo de felicidade. Me faltava muito, e por isso eu buscava tanto as sensações, a sensação desse longo caminhar por outro lugar longe de minha casa, as coisas que pensava enquanto ia me cansando, ou me testando. "

trecho de Tempos de Olívia

Editora Cubzac



segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

"De cores", trecho de Tempos de Olívia



"Ele tem a habilidade de sobrepor as cores como transparências que se interpenetram sem, contudo, haver mistura. Seus planos continuam independentes. É a vontade de entrar na sua obra que me manteve ligada nas piores ocasiões. Eu recorria a algumas de suas músicas para me conformar quando a injustiça se fazia. Ele me fazia redescobrir o instinto de sobrevivência nas horas em que queria desistir de ser o que eu era, e me recobrava a alegria, a confiança de que nada era só, e sim uma grande dança harmônica. O mundo em partes se recompunha por causa da esperança na beleza à qual aquilo tudo me devolvia. Eu pensava que a desarmonia era finita só de imaginar compreender os entremeios daquelas sobreposições transparentes, como brilhos que se intercalavam, e quando conseguia me deslocar até ali, ouvir ao redor, no ambiente tomado pelas melodias fulgurantes, as camadas me envolvendo e eu no olho de um furacão que me traria de volta ao lar. Sempre o contrário do normal, de qualquer normalidade. Tirando-me de meu centro ele me devolvia ao cerne daquilo que eu desejava desde sempre ser, e que estava em mim, no meu olhar, na minha capacidade de fazer essa transposição, ficar diminuta e entrar na obra, ativar os sentidos ajustados para outra espacialidade, a sugestão daquelas harmonias desde que eu estivesse penetrando suas fases todas, vendo minha própria face espelhada enquanto eu chegava pelos meandros mais inesperados que as dissonâncias reservavam."




quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Comentários de Luís Serguilha sobre o Livro



"Capturo o corpo escapando...esqueço o silêncio" em tempos de Olívia de Patricia Maês _______a arte literária desterritorializa os rostos, transvocaliza as enciclopédias movediças do mundo, faz-nos livrar de nós-mesmos, faz-nos entranhar um povo por acontecer! Deslocamo-nos com os olhares do outro de nós mesmos, vazamos esses olhares, fragmentamo-nos em vários pontos de vista, coexistimo-nos nas diferenças, desdobramo-nos em ritmos imanentes para transformar e extrair as qualidades intensivas do mundo, entrecruzado por forças singulares que vivem, desaparecendo incessantemente até à metamorfose alucinante onde o devir-outro refaz vida sem repouso, sem determinações, sem formas fixas, sim, o corpo é um tremendo feixe de possibilidades: OLÍVIA É A SENSAÇÃO desconhecida, uma polissemia infinita de sensações fabulatórias que nos remete ao invisível do sensível! OLÍVIA é o respiramento da palavra, é o verbo catapultador da língua, é uma singradura na matéria-espiritual, é um abalo rasgador do esperado, um desassossego espiritual que vive na correnteza proliferante do impossível (escutar o que diz o tempo puro, o tempo das coexistências, a presentificação do passado na possibilidade do futuro, o tempo desabaladamente que vive adentro de nós).


Luís Serguilha

Recife - Dezembro de 2016



                                                                                    Francesca Woodman

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Meu canal no Youtube

https://www.youtube.com/channel/UC5xpqzHMWG-jLiQIvWK1SuQ


Leitura de trechos dos livros de Patricia, e de Tarkovski.



Nas livrarias!!!

video

Relembrando a Crítica de Cássio Lignani sobre "O céu é meu"

Patricia Maês: Crítica de Cássio Lignani sobre "O céu é meu"

melancolia e comedimento 

Em O céu é meu, primeiro livro de contos de Patricia Maês, lançado neste ano pela editora CUBZAC, não há exageros. Nada está em demasia, e os contos são como receitas do inesperado, das quais o sabor deixado não revela seus elementos e provoca o leitor, abandonado em sua avidez por um pouco mais, sufocado por um prazer interrompido. Deixar-se tocar por cada um de seus contos é entregar-se ao vazio existencial e tratar de preenchê-lo pelo prazer dos sentidos, pela ruptura com um olhar naturalizado e por uma busca silenciosa e solitária por um significado.

Essa escrita comedida revela a autora não só como alguém que manipula bem a linguagem literária, mas também como uma artista que deixa entrever seu pensamento acerca da arte, em suas diversas linguagens. E por sua escrita suave e tão delicada, talvez seja possível imaginar como Patricia Maês, que tem formação musical e em artes cênicas, conduz seu processo criativo; da mesma maneira como a narradora do conto “Pianíssimo” imagina o paralelo que há entre a maneira com que um músico toca seu instrumento e sua forma de viver a vida.

À medida que a leitura avança pelos 15 contos do livro, percebe-se que a sensibilidade tem um papel fundamental para atingir certa clareza da vida. A educação estética eleva a alma, e o sublime é o meio para se atingir esse local elevado, do qual se torna possível observar a vida além da enevoada realidade cotidiana. Assim, não só em “Pianíssimo”, mas também no conto que dá nome ao livro, “O céu é meu”, e em “Retrato”, é possível encontrar a arte como espaço de liberdade, de transgressão, de cores, de fôlego, que oferece aos personagens uma chance de encontro, um caminho para o autoconhecimento, uma alternativa além da rotina pálida e pragmática.

Quando não há nenhuma menção evidente sobre a arte nas narrativas, outras experiências de efeitos semelhantes se infiltram na vida dos personagens. “Silenciosa” fala sobre a viuvez de uma mulher que, isolada e alheia ao mundo exterior a seu apartamento, recolhe-se no prazer – sensorial – de seus longos banhos. “Fragrância Liberdade” apresenta uma prisioneira que encontra no perfume sua “doçura morta”, a possibilidade de se manter sã, a liberdade que contrasta com sua prisão e o cuidado em um espaço de miséria. Em “As vozes das pedras de cada coração”, são as memórias e os segredos que vão romantizar o consumo e atrair a personagem a preencher o seu espaço vazio.

Existe uma coerência na abordagem dos contos, que parecem compor em silêncio esse lugar que compensa uma insatisfação – ainda que inconsciente. Apresentam-se também outros temas, como a infância, não só como nostalgia de um tempo de mistificação, a exemplo de “Um Navio”, mas também sua definição como tempo de liberdade e a possibilidade de revisitá-lo na música, como em “Onde mora a liberdade”, e a libertação do amor repressor dos pais, em “Quem matou quem”. O conto “Quem vive a trabalhar” trata do querer mais, da vida que se esvai no exercício cotidiano do nada, das distâncias que um é capaz de impor sobre sua memória e sobre seus próprios desejos.

Há ainda os encontros, a relação dos casais, as insatisfações veladas e a construção da cumplicidade que existe entre aqueles que de alguma maneira se amam ou se amaram, como em “A horda do bem” e “Só”. Em “Conto com sentido”, a personagem trabalha sua respiração e reflete sobre a vida serenamente em meio ao caos do trânsito e, embora demonstre todo seu autocontrole pelos exercícios de respiração, não impede que esse caos interfira em sua vida e lhe ofereça um reencontro inesperado, que sugere uma ruptura do comedimento.


Patricia Maês nos apresenta um mundo em tom melancólico, deslocado e comedido, produz o incômodo e constrói o silêncio, como se desejasse gritar.  Maria Rita Kehl, ao escrever sobre a melancolia no pensamento ocidental, rememora a relação aristotélica entre a criação e o estado de alma melancólico, que induz o artista a arriscar ao chegar ao abismo de ter sido e não ser mais, para tentar produzir um novo sentido, um novo ser[1]. João Castello, ao escrever sobre o tema tomando João Cabral como exemplo, define a melancolia como um vazio – no peito – construtivo, do qual escorre um “humor doloroso e inexplicável”, e conclui que, “se há falta, há poesia”[2]. Essa falta – melancólica – se manifesta no processo de Patricia Maês ao dar vida à sua criação. Com suavidade, a autora aos poucos toca esse mesmo vazio e o desejo de ser, fazendo escorrer sua poesia.

Esse novo ser transparece no conto “Para saber”, que nos apresenta a personagem Catarina, jovem viúva, cuja trágica vida é filtrada pelas memórias de infância da narradora. É também dessa maneira que percebemos o vazio no conto “A casa”, que aos poucos vai sendo preenchido e renovado, pois “deixar para trás é necessário”. “[...] É preciso ruptura para que possamos entender o que era o antes de acontecer o agora. E ele não se faz sem violência”, sentencia a narradora.

Os contos de “O céu é meu”, nesse sentido, oferecem um espaço para o leitor se aprofundar com sensibilidade. O resultado é um querer mais, uma insatisfação positiva – como alguém que estica o pescoço para melhor escutar uma nota, e assim, sem perceber, se desperta. Os sentidos são suspirados a cada palavra, a cada silêncio. Patricia Maês conduz seu texto como conta um segredo, oferecendo uma experiência, um encontro e um novo desejo de ser.





[1] Kehl, Maria Rita, Melancolia e criação. In: Freud, Sigmund. Luto e melancolia. Trad. Marilene Carone. São Paulo: Cosac Naify, 2011.
[2] Castello, João. Uma defesa da melancolia. Jornal Rascunho, março de 2013.

sábado, 1 de outubro de 2016

Experimentos



Experimentos com poemas de João Diniz 
BOCA e MÁQUINA

https://soundcloud.com/user-716793525/boca-patricia-maes-joao-diniz

https://soundcloud.com/user-716793525/maquina-patricia-maes-joao-diniz



segunda-feira, 26 de setembro de 2016

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Biblioteca Sonora - Rádio USP

Amigos e leitores queridos! 
Amanhã, sábado, vou conversar com o jornalista e filósofo Marcello Bittencourt durante o programa Biblioteca Sonora, na Rádio USP (93,7 MHz). 
O programa vai ao ar às 16h. 
Para quem está fora de São Paulo é só entrar no site da emissora: www.radio.usp.br e clicar no link AO VIVO. 
Espero por vocês!

sábado, 10 de setembro de 2016

Bienal do Livro de São Paulo

     





Conversa sobre "Tempos de Olívia" com a linguista Virgínia Leal, da UFPE. 
Dia 1 de setembro de 2016


sexta-feira, 12 de agosto de 2016

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Francesca Woodman em Tempos de Olívia

   


    Penso em artistas que sofreram o mesmo infortúnio e depois tiveram sua volta. Em quem me inspirarei para ter a fé? Terei de recorrer às referências de pessoas mais brilhantes do que os artistas ao meu redor. Este tempo não está muito rico de ideais tão luminosos, meus contemporâneos precisariam estudar mais e ter o hábito de querer descobrir na grande história as suas inspirações. Tanta coisa já foi feita, sim, e existe até uma música de alguém que considero um gênio, questionando sobre o que haveria para ser dito hoje em dia, depois do todo já visto. Vivemos em um território difícil para os criadores? Ora, vamos deixar de bobagem. Há a vida a ser observada e isso não se esgota. Na falta de algo absolutamente novo, olhe em volta, porque os grandes que nos precederam indicam sem parar vários caminhos explorados apenas em sua superficialidade, e muitas vezes de propósito, para o prazer quase irônico de um desprendimento como quem quer viver passando a bola por pura generosidade, ou mesmo misericórdia. Isso nos é entregue em uma bandeja toda polida e luminosa. Para quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir, as dicas estão aí, claras. 
     Por que falo disso com tanto conhecimento de causa logo neste exato momento? Agora ninguém me socorre com um sinal sequer de algo que poderia me mover a esmiuçar um tema, como sempre foi de meu instinto, esse instinto de espremer as impressões do mundo com uma selvageria que sorve tanto, e quase até o esgotamento de toda energia, a essência de situações, imagens de pessoas, as vozes mais impressionantes a que tenho acesso, as respirações entre as frases das canções que suspendem por instantes a minha própria respiração. Que canção me supriria hoje, assim tão desarticulada? O que eu fiz? Alguém pode me dizer?

     Lembro imediatamente da fotógrafa Francesca Woodman, uma mulher a me chamar a atenção desde sempre com suas obras passíveis de tantas leituras, e que na maioria dos casos me faz acreditar em uma grande obsessão por se virar do avesso na própria criação, achando não valer a pena inventar nada, se não for para se desnudar em todas as instâncias, especialmente as do medo. Ah, como nossos medos são ricos em nos dar direcionamentos para a criação, apresentando-se tão efetivos no que se trata de revirar as vísceras, mas ao mesmo tempo apenas acenando com uma pontinha da calda por trás das paredes espelhadas de um labirinto de proporções estelares.

     Francesca criava, criava, e por uma série de motivos parou um dia de ter as ideias para as viradas que gostava de dar em seus assuntos a serem tratados, julgou-se perdendo o fio da meada. Pronto, junte-se a isso uma desilusão amorosa de juventude e o quadro para o suicídio estava montado.  Acabou com tudo sem piedade. E se foi. Ela que observava em seu tempo a consolidação e a aceitação de alguns novos costumes, para ela já tão velhos, tão reprise de tantas coisas, tantos outros momentos na história. Ela tão observadora, e que tinha tudo para expandir seu universo de representações do belo e do assustador. Sou fascinada por suas imagens.
    Penso que meu trabalho tem como particularidade a busca do lugar da vida no tempo, também. Hoje penso onde me encaixo nesta estranha geometria do tempo. Sou uma artista de tempo nenhum. Neste momento tudo vira plástico e borracha, inclusive a comida, e eu querendo perpetuar minha imaginação que prefere agir através de materiais mais orgânicos, que como a gente, respira, amarela, ganha outros tons, envelhece e morre. Eu sou o susto da luz nos meandros dos instantes de fecunda respiração. E nesses meandros dos instantes está a minha marca, o meu movimento registrado para mostrar, justamente, que não paro. 
     Perigosa respiração. Francesca tão querida, a fotógrafa do movimento, por mais ambicioso que isso possa parecer. Perigosa respiração. O demasiadamente vivo assusta as pessoas. Eu estaria escondida e sem julgamentos se não fosse a minha arte, mas eu aceito desde muito cedo a pagar o preço de ter de ver as pessoas escarafunchando dentro de minha mente as razões para isso, as explicações para aquilo. E quantas delas acertam de verdade? Ah, acabo tendo de ouvir cada coisa... Estou em embate com tudo o que sei, por causa justamente, das coisas que não sei. Tenho uma obsessão parecida com a sua, minha irmã nas artes. Um princípio de vida: cuidar do tempo. Cuidar de tudo o que se relaciona com isso, ganhar sempre que possível, enganando os instantes. Tenho medo quando penso estar perdendo o tempo... mas é um medo tão grande que se manteve até agora inominável, por isso mesmo sei do quanto ainda posso continuar em minha busca por definições nesta vida. Então desabafo meus temores inventando imagens, como você, só que a meu modo, tratando as palavras, mas também tecendo cenários e tudo o que os habita, como corpos e respiração.  

Trecho