modular é necessário







quarta-feira, 26 de outubro de 2016

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Leitura de trechos dos livros de Patricia, e de Tarkovski.



Nas livrarias!!!

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Relembrando a Crítica de Cássio Lignani sobre "O céu é meu"

Patricia Maês: Crítica de Cássio Lignani sobre "O céu é meu"

melancolia e comedimento 

Em O céu é meu, primeiro livro de contos de Patricia Maês, lançado neste ano pela editora CUBZAC, não há exageros. Nada está em demasia, e os contos são como receitas do inesperado, das quais o sabor deixado não revela seus elementos e provoca o leitor, abandonado em sua avidez por um pouco mais, sufocado por um prazer interrompido. Deixar-se tocar por cada um de seus contos é entregar-se ao vazio existencial e tratar de preenchê-lo pelo prazer dos sentidos, pela ruptura com um olhar naturalizado e por uma busca silenciosa e solitária por um significado.

Essa escrita comedida revela a autora não só como alguém que manipula bem a linguagem literária, mas também como uma artista que deixa entrever seu pensamento acerca da arte, em suas diversas linguagens. E por sua escrita suave e tão delicada, talvez seja possível imaginar como Patricia Maês, que tem formação musical e em artes cênicas, conduz seu processo criativo; da mesma maneira como a narradora do conto “Pianíssimo” imagina o paralelo que há entre a maneira com que um músico toca seu instrumento e sua forma de viver a vida.

À medida que a leitura avança pelos 15 contos do livro, percebe-se que a sensibilidade tem um papel fundamental para atingir certa clareza da vida. A educação estética eleva a alma, e o sublime é o meio para se atingir esse local elevado, do qual se torna possível observar a vida além da enevoada realidade cotidiana. Assim, não só em “Pianíssimo”, mas também no conto que dá nome ao livro, “O céu é meu”, e em “Retrato”, é possível encontrar a arte como espaço de liberdade, de transgressão, de cores, de fôlego, que oferece aos personagens uma chance de encontro, um caminho para o autoconhecimento, uma alternativa além da rotina pálida e pragmática.

Quando não há nenhuma menção evidente sobre a arte nas narrativas, outras experiências de efeitos semelhantes se infiltram na vida dos personagens. “Silenciosa” fala sobre a viuvez de uma mulher que, isolada e alheia ao mundo exterior a seu apartamento, recolhe-se no prazer – sensorial – de seus longos banhos. “Fragrância Liberdade” apresenta uma prisioneira que encontra no perfume sua “doçura morta”, a possibilidade de se manter sã, a liberdade que contrasta com sua prisão e o cuidado em um espaço de miséria. Em “As vozes das pedras de cada coração”, são as memórias e os segredos que vão romantizar o consumo e atrair a personagem a preencher o seu espaço vazio.

Existe uma coerência na abordagem dos contos, que parecem compor em silêncio esse lugar que compensa uma insatisfação – ainda que inconsciente. Apresentam-se também outros temas, como a infância, não só como nostalgia de um tempo de mistificação, a exemplo de “Um Navio”, mas também sua definição como tempo de liberdade e a possibilidade de revisitá-lo na música, como em “Onde mora a liberdade”, e a libertação do amor repressor dos pais, em “Quem matou quem”. O conto “Quem vive a trabalhar” trata do querer mais, da vida que se esvai no exercício cotidiano do nada, das distâncias que um é capaz de impor sobre sua memória e sobre seus próprios desejos.

Há ainda os encontros, a relação dos casais, as insatisfações veladas e a construção da cumplicidade que existe entre aqueles que de alguma maneira se amam ou se amaram, como em “A horda do bem” e “Só”. Em “Conto com sentido”, a personagem trabalha sua respiração e reflete sobre a vida serenamente em meio ao caos do trânsito e, embora demonstre todo seu autocontrole pelos exercícios de respiração, não impede que esse caos interfira em sua vida e lhe ofereça um reencontro inesperado, que sugere uma ruptura do comedimento.


Patricia Maês nos apresenta um mundo em tom melancólico, deslocado e comedido, produz o incômodo e constrói o silêncio, como se desejasse gritar.  Maria Rita Kehl, ao escrever sobre a melancolia no pensamento ocidental, rememora a relação aristotélica entre a criação e o estado de alma melancólico, que induz o artista a arriscar ao chegar ao abismo de ter sido e não ser mais, para tentar produzir um novo sentido, um novo ser[1]. João Castello, ao escrever sobre o tema tomando João Cabral como exemplo, define a melancolia como um vazio – no peito – construtivo, do qual escorre um “humor doloroso e inexplicável”, e conclui que, “se há falta, há poesia”[2]. Essa falta – melancólica – se manifesta no processo de Patricia Maês ao dar vida à sua criação. Com suavidade, a autora aos poucos toca esse mesmo vazio e o desejo de ser, fazendo escorrer sua poesia.

Esse novo ser transparece no conto “Para saber”, que nos apresenta a personagem Catarina, jovem viúva, cuja trágica vida é filtrada pelas memórias de infância da narradora. É também dessa maneira que percebemos o vazio no conto “A casa”, que aos poucos vai sendo preenchido e renovado, pois “deixar para trás é necessário”. “[...] É preciso ruptura para que possamos entender o que era o antes de acontecer o agora. E ele não se faz sem violência”, sentencia a narradora.

Os contos de “O céu é meu”, nesse sentido, oferecem um espaço para o leitor se aprofundar com sensibilidade. O resultado é um querer mais, uma insatisfação positiva – como alguém que estica o pescoço para melhor escutar uma nota, e assim, sem perceber, se desperta. Os sentidos são suspirados a cada palavra, a cada silêncio. Patricia Maês conduz seu texto como conta um segredo, oferecendo uma experiência, um encontro e um novo desejo de ser.





[1] Kehl, Maria Rita, Melancolia e criação. In: Freud, Sigmund. Luto e melancolia. Trad. Marilene Carone. São Paulo: Cosac Naify, 2011.
[2] Castello, João. Uma defesa da melancolia. Jornal Rascunho, março de 2013.

sábado, 1 de outubro de 2016

Experimentos



Experimentos com poemas de João Diniz 
BOCA e MÁQUINA

https://soundcloud.com/user-716793525/boca-patricia-maes-joao-diniz

https://soundcloud.com/user-716793525/maquina-patricia-maes-joao-diniz



segunda-feira, 26 de setembro de 2016

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Biblioteca Sonora - Rádio USP

Amigos e leitores queridos! 
Amanhã, sábado, vou conversar com o jornalista e filósofo Marcello Bittencourt durante o programa Biblioteca Sonora, na Rádio USP (93,7 MHz). 
O programa vai ao ar às 16h. 
Para quem está fora de São Paulo é só entrar no site da emissora: www.radio.usp.br e clicar no link AO VIVO. 
Espero por vocês!

sábado, 10 de setembro de 2016

Bienal do Livro de São Paulo

     





Conversa sobre "Tempos de Olívia" com a linguista Virgínia Leal, da UFPE. 
Dia 1 de setembro de 2016


sexta-feira, 12 de agosto de 2016

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Francesca Woodman em Tempos de Olívia

   


    Penso em artistas que sofreram o mesmo infortúnio e depois tiveram sua volta. Em quem me inspirarei para ter a fé? Terei de recorrer às referências de pessoas mais brilhantes do que os artistas ao meu redor. Este tempo não está muito rico de ideais tão luminosos, meus contemporâneos precisariam estudar mais e ter o hábito de querer descobrir na grande história as suas inspirações. Tanta coisa já foi feita, sim, e existe até uma música de alguém que considero um gênio, questionando sobre o que haveria para ser dito hoje em dia, depois do todo já visto. Vivemos em um território difícil para os criadores? Ora, vamos deixar de bobagem. Há a vida a ser observada e isso não se esgota. Na falta de algo absolutamente novo, olhe em volta, porque os grandes que nos precederam indicam sem parar vários caminhos explorados apenas em sua superficialidade, e muitas vezes de propósito, para o prazer quase irônico de um desprendimento como quem quer viver passando a bola por pura generosidade, ou mesmo misericórdia. Isso nos é entregue em uma bandeja toda polida e luminosa. Para quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir, as dicas estão aí, claras. 
     Por que falo disso com tanto conhecimento de causa logo neste exato momento? Agora ninguém me socorre com um sinal sequer de algo que poderia me mover a esmiuçar um tema, como sempre foi de meu instinto, esse instinto de espremer as impressões do mundo com uma selvageria que sorve tanto, e quase até o esgotamento de toda energia, a essência de situações, imagens de pessoas, as vozes mais impressionantes a que tenho acesso, as respirações entre as frases das canções que suspendem por instantes a minha própria respiração. Que canção me supriria hoje, assim tão desarticulada? O que eu fiz? Alguém pode me dizer?

     Lembro imediatamente da fotógrafa Francesca Woodman, uma mulher a me chamar a atenção desde sempre com suas obras passíveis de tantas leituras, e que na maioria dos casos me faz acreditar em uma grande obsessão por se virar do avesso na própria criação, achando não valer a pena inventar nada, se não for para se desnudar em todas as instâncias, especialmente as do medo. Ah, como nossos medos são ricos em nos dar direcionamentos para a criação, apresentando-se tão efetivos no que se trata de revirar as vísceras, mas ao mesmo tempo apenas acenando com uma pontinha da calda por trás das paredes espelhadas de um labirinto de proporções estelares.

     Francesca criava, criava, e por uma série de motivos parou um dia de ter as ideias para as viradas que gostava de dar em seus assuntos a serem tratados, julgou-se perdendo o fio da meada. Pronto, junte-se a isso uma desilusão amorosa de juventude e o quadro para o suicídio estava montado.  Acabou com tudo sem piedade. E se foi. Ela que observava em seu tempo a consolidação e a aceitação de alguns novos costumes, para ela já tão velhos, tão reprise de tantas coisas, tantos outros momentos na história. Ela tão observadora, e que tinha tudo para expandir seu universo de representações do belo e do assustador. Sou fascinada por suas imagens.
    Penso que meu trabalho tem como particularidade a busca do lugar da vida no tempo, também. Hoje penso onde me encaixo nesta estranha geometria do tempo. Sou uma artista de tempo nenhum. Neste momento tudo vira plástico e borracha, inclusive a comida, e eu querendo perpetuar minha imaginação que prefere agir através de materiais mais orgânicos, que como a gente, respira, amarela, ganha outros tons, envelhece e morre. Eu sou o susto da luz nos meandros dos instantes de fecunda respiração. E nesses meandros dos instantes está a minha marca, o meu movimento registrado para mostrar, justamente, que não paro. 
     Perigosa respiração. Francesca tão querida, a fotógrafa do movimento, por mais ambicioso que isso possa parecer. Perigosa respiração. O demasiadamente vivo assusta as pessoas. Eu estaria escondida e sem julgamentos se não fosse a minha arte, mas eu aceito desde muito cedo a pagar o preço de ter de ver as pessoas escarafunchando dentro de minha mente as razões para isso, as explicações para aquilo. E quantas delas acertam de verdade? Ah, acabo tendo de ouvir cada coisa... Estou em embate com tudo o que sei, por causa justamente, das coisas que não sei. Tenho uma obsessão parecida com a sua, minha irmã nas artes. Um princípio de vida: cuidar do tempo. Cuidar de tudo o que se relaciona com isso, ganhar sempre que possível, enganando os instantes. Tenho medo quando penso estar perdendo o tempo... mas é um medo tão grande que se manteve até agora inominável, por isso mesmo sei do quanto ainda posso continuar em minha busca por definições nesta vida. Então desabafo meus temores inventando imagens, como você, só que a meu modo, tratando as palavras, mas também tecendo cenários e tudo o que os habita, como corpos e respiração.  

Trecho


segunda-feira, 13 de junho de 2016

Comentários sobre Tempos de Olívia

Festa de Lançamento de "Tempos de Olívia" 
dia 22 de junho, às 19h
Bar do Museu Clube da Esquina. Rua Paraisópolis, 738 - Santa Tereza - BH (31) 2512-5050

ESSE NÃO DÁ PRA PERDER. MESMO! Lançamento de "Tempos de Olívia", de Patricia Maês. Há algum tempo, li seus originais e fui fisgado para sempre. Sei que a obra sofreu mutações. Patricia, como toda boa e séria escritora, altera sua obra até o último segundo antes de ir para a gráfica. Quando li, eis o que escrevi/senti:
“Tempos de Olívia” é plantação na aridez. Mas não uma aridez insossa; ao contrário, uma aridez das olivas já banhadas e evaporadas em sal ou lágrimas. A fotografia ou o filme é a espinha dorsal. Não há como, também, deixar de pensar na câmara escura, no claro/escuro e saber que, mesmo quando a película é revelada, o que pode haver é a assombração. De viver & seus medos & renovações.
Por isso o salto, o desprendimento. Somos todos culpados pelo simples fato de viver? Somos todos Meursault, personagem de Albert Camus em “O Estrangeiro”? Meur-sault: salto para a morte. O salto de Patrícia Maês é mais libertador, ainda que continuemos acorrentados na condição de ser humano, demasiadamente humano.
Ruptura dos desvãos do dia-a-dia, das personas societais, do que não é controlável. Como Lady Olívia, personagem da peça “Noite de Reis”, de Shakespeare. Em Patrícia Maês, nada da comédia britânica mas, como em Shakespeare, a tônica é o sentimento, ainda que turvo, ainda que engodo. O que permite a permanência da dignidade é a ciência de poder pensar e sentir, ainda que tenhamos que atravessar o labirinto de enganos chamado tempo. Um pensamento vale mais que mil palavras.
“Tempos de Olívia” é de uma beleza única. Mas uma beleza de roer cordas, como as de uma lona sobre um picadeiro que depende de hastes de madeira e cordas para se sustentar. Esta obra é um diário e um testamento naquilo que há de revelador e daquilo que oferece como patrimônio de uma mulher, de um homem, do desconhecido, do vizinho, qualquer uma/um que viveu. E ainda viverá muito, que a humanidade é infinita até acabar. Como “Tempos de Olívia”.
“A liberdade que ainda não compreendi”, diz Olívia, em determinado momento do livro. Patrícia Maês, em contrapartida, a assimilou muito bem. A liberdade. Operou uma certa magia: roeu cordas (internas, nas frases, no pensamento) e o circo permanece de pé, exuberante. Existir é ser e estar no mundo. E construí-lo. Parafraseando o ícone beat de São Paulo, Roberto Piva: Avante, Capitã Loucura! E, no final, qual palavra? “vendaval”.
Lucas Guimaraens
Works at UNESCO, Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais and Filosofia da Cultura e Instituições - Unesco

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Tempos de Olívia



Talvez em Tempos de Olívia se encontre uma das mais felizes definições do que seja a função de um artista hoje: “somos os gladiadores matando as feras que matariam os mais sensíveis.” Cada nova obra, como essa de Patricia Maês, que é um banho de poesia, resgata o humano das aterradoras superficialidades vazias, ou seja, da “desumanização dos homens”. 
Tempos de Olívia é prosa, mas prosa poética. Não se deixa levar pela simples narração objetiva. Acrescenta timbres inusitados e colore com notas emocionais cada frase. 
O medo diante da tela branca, da página sem uma palavra sequer escrita, de uma partitura muda: eis o drama do artista em seus momentos de crise criadora. 
O mote principal do romance de Patricia Maês deriva desse drama. Diante da impossibilidade de criar, a personagem Olívia vai tecendo um universo amplo de investigações sobre si mesma e sobre sua relação com o mundo: seja o da arte, o do amor, o das amizades ou do seu público. 
No interior do romance, fica claro o drama do processo criador bloqueado cujo resultado é devastador, uma paralisia da própria vida que vai se constituindo em torno da personagem. 
A explicação sobre o sentido da existência dos artistas (esses “deuses tortos”) e da arte, é produzida no mesmo movimento da crise de criação que a envolve. Gerando uma reflexão sobre o sentido da própria crise, revela o resultado que a literatura teria na vida de seus leitores.
O artista seria, numa bela metáfora criada por Patricia Maês, aquele que “coloca o coração na ponta da lança e o oferece às feras.” 
E sua missão é clara: “A beleza é nosso papel, e só por ela estamos aqui.”

Jardel Dias Cavalcanti 
Prof. de Crítica e História da Arte na UEL, Colunista do site: www.digestivocultural.com



LANÇAMENTO DIA 22 DE JUNHO, ÀS 19H

A festa será no Bar do Museu Clube da Esquina.
Rua Paraisópolis, 738 - Santa Tereza - BH
(31) 2512-5050

segunda-feira, 14 de março de 2016

Lançamento em junho!

CUBZAC EDITORA 
Lançamento dia 22 de junho, às 19h.
A festa será no Bar do Museu Clube da Esquina.
Rua Paraisópolis, 738 - Santa Tereza - BH
(31) 2512-5050



sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

a rotatória - vestida como Emilie Flöge


A ROTATÓRIA
Faz frio na rua, mas tento acreditar que meu vestido de mangas longas e fartas em tecido me suprirá. O vento ajudará a secar o sangue da mão. Na pequena ladeira sinto os tornozelos pouco firmes sobre os saltos, mas posso equilibrar a taça e a garrafa de vinho. Finalmente a esquina, e chego nela como quem chega numa dobra da minha alma, o caminho com opções a oferecer, objetivamente quatro direções. Preciso analisar esse número. Minhas opções não são poucas porque sou antes de tudo uma pessoa inventiva. Finalmente pisar dentro do círculo perfeito da rotatória admirada há anos tão de longe. Céus, como venta aqui... e me posiciono bem ao centro do círculo, levanto minha taça e escolho brindar ao que virá, sem pensar em decisões, sem forçar a saída para um dos destinos possíveis. Encaro como triunfo estar no centro da forma recomeçando de qualquer ponto, um palco para encenar a nova aquisição, a libertadora falta do que fazer, sem preocupações de nenhuma natureza, minha arena em que eu mesma me assisto sem susto.
Um carro se aproxima descendo a ladeira, mas estou protegida porque estou dentro da rotatória. Do lado oposto, como coincidência, vem outro carro e joga um farol alto na minha direção, talvez advertência para eu não cruzar a rua. Como resposta, o primeiro carro também sobe o farol para cima de mim, e de repente, nas travessas perpendiculares outros dois carros se dirigem à mesma esquina, ambos abusando da maldita luz forte. Os carros se movimentam, mas não chegam nunca, e eu parada começo a me perceber na mira dos quatro, suas luzes me escancarando assim, essa pessoa fazendo algo um tanto incomum a julgar pelo que seguro em minhas mãos, a julgar pela minha paralisia, pelo meu vestido de cores psicodélicas, pelo horário. As luzes de fato não chegam, o tempo se espichou e eu me sinto virando uma estátua, petrificada por fora, mas me contorcendo de medo por dentro. Sou uma farsa aqui tentando brindar, brindar para quê? Eu deveria estar em outro lugar, então? O tempo parou, e eu estou ameaçada, protegida por nada com meu vestido esvoaçando gelado dentro do círculo que é só um desenho no chão, meu copo quase caindo já que minha mão voltou a doer, as luzes como uma acusação, como advertência de que estou errada, lugar errado, hora errada, sangue errado. Mas a errada não sou eu. Os carros e seus faróis se aproximam como se fossem todos colidir, sem contornar meu círculo invólucro de coisa alguma. Como eu queria minha rotatória me acolhendo melhor neste momento, em que não precisaria ser difícil estar parada aqui. Pode ser madrugada, posso ter vinho nas mãos, sangue escorrendo, essas estampas vibrantes revelando uma pretensão agora mesmo desbancada de me parecer com uma pintura de Klimt, mas o que repentinamente acorda meus olhos ofuscados dos faróis ameaçadores, faróis tão acusativos, é que neste exato instante eles apenas clareiam que tudo o que andei enumerando ao meu redor e pretendendo me traduzir minimamente admirável, não existe. O que existe é Olívia sozinha, e isso não é nada saboroso nem natural. E destoa de tudo o que eu poderia julgar aceitável, eu, a tão pronta nas definições e julgamentos de tudo. As luzes me escancaram nessa arena inventada e para onde vim como alguém adornada e lindamente preparada para descortinar sua absurda e desmedida miséria. Sou só. Só de tudo. Estou nesta madrugada, largada no meio de uma encruzilhada, debaixo de um céu roxo e sem estrelas teimando em não amanhecer, o ar não inspirando movimento mesmo ventando assim tão forte, mesmo com os carros se aproximando agora bruscamente e fazendo tremer tanto, porque tudo se desloca e a estagnação é só minha, só decorrente dessa estúpida solidão.

natureza e mimetismo - trecho

A natureza me ensinou uma coisa: dói menos quando nos infiltramos, quando nos rendemos. Eu gosto de escrever meu mimetismo com as coisas da natureza, porque nos correspondemos, eu e ela. Foi um aviso de sabedoria em minha vida quando entendi minha relação com o mundo natural. É uma relação de aceitação quanto às fragilidades. Na natureza só temos vontade de dizer: não me machuque! Ao passo em que é justamente em contato com ela que podemos nos fortalecer. Porque no mundo natural tem a tal respiração, meu tema. Hoje estou cansada de tanto trabalho, e talvez por isso esteja sofrendo da falta de ideias. Além disso despejei em meu último texto tudo o que pensava e sentia por meu Nyx, atitude ousada e brava. Fui tanto até os limites, que já sei até da situação de corpos putrefatos, das vestes de suor das mulheres açoitadas e esquecidas. Assim a morte fica próxima e faço questão de encará-la para entender melhor as sutilezas do medo do tempo. Quanta ruína ainda vou ter de ver... e a única resposta a tudo isso é continuar desafiando o esquecimento através do meu trabalho, disso que posso fazer.
Eu capturo o corpo escapando, solto o que o flash quer segurar, solto tudo, deixo as imagens em revoada revolta dentro do espaço delimitado pelos escombros do íntimo de cada personagem, e assim provo que a liberdade existe em qualquer circunstância, mesmo na dor mais aguda. Está tudo solto, eu sou solta.

trecho de "Tempos de Olívia"


Penso em artistas que sofreram o mesmo infortúnio e depois tiveram sua volta. Em quem me inspirarei para ter a fé? Terei de recorrer às referências de pessoas mais brilhantes do que os artistas ao meu redor. Este tempo não está muito rico de ideais tão luminosos, meus contemporâneos precisariam estudar mais e ter o hábito de querer descobrir na grande história as suas inspirações. Tanta coisa já foi feita, sim, e existe até uma música de alguém que considero um gênio, questionando sobre o que haveria para ser dito hoje em dia, depois do todo já visto. Vivemos em um território difícil para os criadores? Ora, vamos deixar de bobagem. Há a vida a ser observada e isso não se esgota. Na falta de algo absolutamente novo, olhe em volta, porque os grandes que nos precederam indicam sem parar vários caminhos explorados apenas em sua superficialidade, e muitas vezes de propósito, para o prazer quase irônico de um desprendimento como quem quer viver passando a bola por pura generosidade, ou mesmo misericórdia. Isso nos é entregue em uma bandeja toda polida e luminosa. Para quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir, as dicas estão aí, claras.

Por que falo disso com tanto conhecimento de causa logo neste exato momento? Agora ninguém me socorre com um sinal sequer de algo que poderia me mover a esmiuçar um tema, como sempre foi de meu instinto, esse instinto de espremer as impressões do mundo com uma selvageria que sorve tanto, e quase até o esgotamento de toda energia, a essência de situações, imagens de pessoas, as vozes mais impressionantes a que tenho acesso, as respirações entre as frases das canções suspendendo por instantes a minha própria respiração. Que canção me supriria hoje, assim tão desarticulada? O que eu fiz? Alguém pode me dizer?


de cores - trecho de "Tempos de Olívia"



DE CORES
Ele tem a habilidade de sobrepor as cores como transparências se interpenetrando sem, contudo, haver mistura. Seus planos continuam independentes. É a vontade de entrar na sua obra que me manteve ligada nas piores ocasiões. Eu recorria a algumas de suas músicas para me conformar quando a injustiça se fazia. Ele me fazia redescobrir o instinto de sobrevivência nas horas em que queria desistir de ser o que eu era, e me recobrava a alegria, a confiança de que nada era só, e sim uma grande dança harmônica. O mundo em partes se recompunha por causa da esperança na beleza à qual aquilo tudo me devolvia. Eu pensava que a desarmonia era finita só de imaginar compreender os entremeios daquelas sobreposições transparentes, como brilhos se intercalando, e quando conseguia me deslocar até ali, ouvir ao redor, no ambiente tomado pelas melodias fulgurantes, as camadas me envolvendo e eu no olho de um furacão me trazendo de volta ao lar. Sempre o contrário do normal, de qualquer normalidade. Tirando-me de meu centro ele me devolvia ao cerne daquilo que eu desejava desde sempre ser, e que estava em mim, no meu olhar, na minha capacidade de fazer essa transposição, ficar diminuta e entrar na obra, ativar os sentidos ajustados para outra espacialidade, a sugestão daquelas harmonias desde que eu estivesse penetrando suas fases todas, vendo minha própria face espelhada enquanto eu chegava pelos meandros mais inesperados reservados pelas dissonâncias. Foi a mais perfeita arquitetura a que tive acesso. Sou uma expectadora consciente de minha procura, mas sou surpreendida pelo que vejo a mais, e esse a mais é constante, sempre se apresenta. Como uma música que ouvimos milhões de vezes e a cada vez nos revela outros fraseados no arranjo elaborado para a sua apreciação nunca ter fim. Eu fui cooptada desde a primeira audição. Música espelho. Música de camadas transparentes, se revezando na intensidade, ora uma, ora outra se sobressaindo e eu escutando e mergulhando na cor. A cor ao lado de outra cor, que é atrás, e é na frente. Contraponto e harmonia. A música dele e as minhas possibilidades de alegria são tão correspondentes que se aquele rapaz do violino estivesse aqui e eu tivesse de conversar com ele sobre beleza e plenitude, lhe apresentaria algumas dessas obras. O silêncio certamente se faria, e a música começaria logo em seguida, assim que estivéssemos os dois rindo de tanta satisfação pela ausência de solidão artística que aquela imensidão de brilhos explosivos se entrelaçando sugere a qualquer criatura criadora. Assim é a música de meu Nyx.