Um dia, os meninos cantavam uma música desconhecida, e o homem ali,
interpretando sua estudada e treinada face de expectador atento e lúcido, como se
alguma coisa ao redor ainda o tocasse, coisa já tão impossível... Ela nem quis se fixar na cena e observar, aquilo tudo era bem conhecido, bobagem recorrente... mas depois
parou e se deu o direito de lamentar. Um homem que sabia fazer tantas coisas, tantas coisas seguramente brilhantes, mas que se encolhia ao máximo
para almejar o mínimo, se escondia desesperadamente para aparentar aquilo que na
realidade não trazia em seu íntimo. Um desperdício imperdoável. Se ele não
perdesse tanto tempo sendo um impostor do desnecessário, teria como perceber a si mesmo, e com o carinho dignificante de permitir-se simplesmente ser o que
já teve de melhor, antes que, por ter ficado tanto tempo guardado, adquirindo
bolor e fungos, ele mesmo se transformasse em artigo morto, morto sem volta, sem
nenhuma possibilidade de reanimação. “Mas não, não se pode extinguir uma
energia assim!”, ela teria rebatido por toda uma vida, continuando firme seu
caminhar de impavidez, desprezando as evidências de que o homem agonizava, secava.
Outros diziam há tempos: Ele está morto, como não
ver? E ela justificando, com o melhor de sua capacidade de argumentar a favor de
seus afetos tão puros. E não se julgava tapando os olhos, e sim regando um
jardim. Com um pouco do fertilizante mágico desenvolvido em seu laboratório
secreto de antídotos para a injustiça inevitável, ele, um dia, despertaria para
viver de novo como a natureza o fez.
Mas os anos se seguiam e as coisas permaneciam bem
distantes daquele salto necessário que só poderia partir dele mesmo. O homem não
reagia, se recusava a olhar para dentro, e apenas ia em frente com seu corpo
oco cumprindo protocolos, como honrar a agenda, entrar no avião, comparecer aos
compromissos, falar o texto de cumprimentos e saudações nas ocasiões
apresentadas - como manda a cartilha da educação, e as palavras certas nas
despedidas - como manda a cartilha dos negócios. E junto com seu corpo
oco, que se julgava indo para a frente, circulava por aí uma emanação cansada, de
um espírito que não mais tinha a luz de fazer crescer qualquer coisa em direção
às mais elevadas esferas da alegria fundamentada, aquela de raízes, de voo além
das asas, e o que vem no meio disso tudo.
E então aos poucos ela foi admitindo,
mesmo a contragosto, que ali faltava a fonte da juventude real, o viço tão desejado e que por isso mesmo o homem aprendera a maquiar em si, sem
poupar esforços e investimentos. Sim, movimento lépido, frescor que respira, a aura que sorri. Ela esteve esse
tempo todo interessada na descoberta desse mistério de beleza verdadeira, e no
entanto, o que ele tinha a dar era uma farsa mantida às custas de procedimentos
mecânicos que retesam pele e músculos na violência de corte e costura, sem
falar em injeções de toxinas paralisando as linhas de expressões adquiridas no
percurso torto da vida em desprezo. O que ele tinha a oferecer era a
ladainha rendida, de apelos para que nada novo lhe fosse mostrado nesta vida.
Nunca mais, nada, nada do que ele já não tivesse visto, por favor. O novo era
uma agressão, o desconhecido um insulto à sua alma que não estava mais lá.
E chegou o tempo dela se convencer por completo. Revolução
súbita. A própria vida tratou de arrumar um jeito de sacudi-la para não ter
mais dúvidas, a verdade imperou ao reclamar com grande revolta o seu lugar, e
tudo o que era, enfim veio à luz. Morto, ele se consolava da febre do mundo, diante da qual não teve anticorpos e força de combate. Morto, ele tinha o que
chamava de paz. A paz de acordar e abrir os olhos, todas as manhãs, só conseguindo vislumbrar cenas do passado e as insepultas desgraceiras das velhas quedas embriagadas. “Então que assim seja”, ela disse, já sem a perplexidade
esperada. Não era uma iniciante neste mundo de provações, e tinha a dignidade
de não mover nem um mínimo músculo da face, denotando tristeza, mesmo estando por ora vencida e obrigada a relevar um infortúnio desse calibre. Fez o gesto de
se levantar calmamente, abrindo a janela e deixando os papéis voarem de cima da
mesa, de cima das cadeiras, se espalhando pela sala, pela varanda. Tudo ia, flanava em
círculos, acompanhando o assobio da ventania que chegava anunciando chuva. Não correu para abraçar os papéis, tentar resgatá-los e salvar seus conteúdos.
Riu um riso estourado de quem acabara de se libertar de um vício doloroso, esse
da crença inglória. Riu um riso aliviado de quem já percebeu a direção de se
contornar coisas pesadas, como estagnação e miséria de coração. A saída era
olhar a cratera aberta em seu peito, pela falta de correspondência a toda energia
empregada enquanto plantou naquele jardim de devastações. A saída era abraçar o descampado
e inventar ali outro gérmen, uma semente que brotasse, de novo, o louvor às
fascinações, aos desejos vivos, ao que aponta o infinito. Tudo o que era
necessário agora tinha um nome tão simples...
Ela saiu para ver a chuva e se preparar. Afinal, aquilo de nome simples viria inevitavelmente, depois dessas
vivências ricas e bem sorvidas. A chuva era movimento vivo, molhava a paisagem, enquanto o chão se alimentava de tanta substância nova, abundância impreterível. Ela vê, ela crê. Tudo pode ser de novo
inédito. Desfazer-se nesse mar perene da receptividade é uma glória, tão certo
como tudo o que existe precisa do amor."

Tudo pode mesmo ser de novo inédito, como este belo conto espraiado pelas linhas bem escritas de uma história verdadeira, ou uma eterna ficção.
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