modular é necessário







sexta-feira, 16 de junho de 2017

Trecho de O MEDO DO CLARO

Trecho do livro novo, "O medo do claro".
Capítulo "O homem morto foi à festa".



                  "Um dia, os meninos cantavam uma música desconhecida, e o homem ali, interpretando sua estudada e treinada face de lúcido expectador atento, como se aquilo ao redor o tocasse ainda, coisa já tão impossível... Ela nem se deteve para observar, aquilo tudo era bem conhecido, bobagem recorrente... mas depois parou e se deu o direito de lamentar. Um homem que sabia fazer tantas coisas, lembrou-se, tantas coisas seguramente brilhantes, mas que se encolhia ao máximo do almejar o mínimo, se encolhia a aparentar desesperadamente aquilo que na realidade não trazia em seu íntimo. Um desperdício imperdoável. Se ele não perdesse tanto tempo sendo um impostor do desnecessário, teria como perceber a si mesmo, e com o carinho dignificante de permitir-se simplesmente ser o que já teve de melhor, antes que, por ter ficado tanto tempo guardado, adquirindo bolor e fungos, aquilo se transformasse em artigo morto, morto sem volta, sem nenhuma possibilidade de reanimação. “Mas não, não se pode extinguir uma energia assim!”, ela teria rebatido por toda uma vida, continuando firme seu caminhar de impavidez, desprezando as evidências de que o homem agonizava, secava.
Outros diziam há tempos: Ele está morto, como não ver? E ela justificando com o melhor de sua capacidade de argumentar a favor de seus afetos tão puros. E não se julgava tapando os olhos, e sim regando um jardim. Com um pouco do fertilizante mágico desenvolvido em seu laboratório secreto de antídotos para a mais proibida das realidades, aquilo que fingimos ser invisível, a injustiça – pronunciar baixinho - ele um dia despertaria para viver de novo como a natureza o fez.
Mas os anos se seguiam e as coisas permaneciam bem distantes daquele salto necessário que só poderia partir dele mesmo. O homem não reagia, se recusava a olhar para dentro, e apenas ia em frente com seu corpo oco cumprindo protocolos, como honrar a agenda, entrar no avião, comparecer aos compromissos, falar o texto de cumprimentos e saudações nas ocasiões apresentadas, como manda a cartilha da educação, e as palavras certas nas despedidas também, como manda a cartilha dos negócios. E junto com seu corpo oco, a se imaginar indo para a frente, circulava por aí uma emanação cansada de um espírito que não mais tinha a luz de fazer crescer qualquer coisa em direção às mais elevadas esferas da alegria fundamentada, aquela de raízes, de voo além das asas, e o que vem no meio disso tudo. E então aos poucos ela foi admitindo, mesmo a contragosto, que faltava ali a fonte da juventude real, o viço desejado por todos e que por isso mesmo o homem aprendera a maquiar em si sem poupar esforços e investimentos, e na maioria do tempo até com louvável sucesso. Sim, movimento lépido, frescor que respira, a aura que sorri. Ela esteve esse tempo todo interessada na descoberta desse mistério de beleza verdadeira, e no entanto o que ele tinha a dar era uma farsa mantida às custas de procedimentos mecânicos que retesam pele e músculos na violência de corte e costura, sem falar em injeções de toxinas paralisando as linhas de expressões adquiridas no percurso torto da vida ruminante e acomodada. O que ele tinha a oferecer era a ladainha rendida dos apelos para que nada novo lhe fosse mostrado nesta vida. Nunca mais, nada, nada do que ele já não tivesse visto, por favor. O novo era uma agressão, o desconhecido um insulto à sua alma que não estava mais lá.

E chegou o tempo dela se convencer por completo. Revolução súbita. A própria vida tratou de arrumar um jeito de sacudi-la para não ter mais dúvidas, a verdade imperou ao reclamar com grande revolta o seu lugar, e tudo o que era, enfim veio à luz. Morto, ele se consolava da febre do mundo, diante da qual não teve anticorpos e força de combate. Morto, ele tinha o que chamava de paz. A paz de acordar e abrir os olhos, todas as manhãs, só conseguindo vislumbrar cenas do passado e as insepultas desgraceiras das velhas quedas embriagadas. “Então que assim seja”, ela disse já sem a perplexidade esperada. Não era uma iniciante neste mundo de provações, e tinha a dignidade de não mover nem um mínimo músculo da face, denotando tristeza, mesmo estando por ora vencida e obrigada a relevar um infortúnio desse calibre. Fez o gesto de se levantar calmamente, abrindo a janela e deixando os papéis voarem de cima da mesa, de cima das cadeiras, se espalhando pela sala, pela varanda, flanando em círculos acompanhando o assobio da ventania que chegava anunciando chuva. Ela não correu a abraçar os papéis, a tentar resgatá-los e salvar seus conteúdos. Riu um riso estourado de quem acabara de se libertar de um vício doloroso, esse da crença inglória. Riu um riso aliviado de quem já percebeu a direção de se contornar coisas pesadas, como estagnação e miséria de coração. A saída era olhar a cratera aberta em seu peito, pela falta de correspondência a toda energia empregada enquanto plantou naquele jardim de devastações. A saída era abraçar o descampado e inventar ali outro gérmen, uma semente que brotasse de novo o louvor às fascinações, aos desejos vivos, ao que aponta o infinito. Tudo o que era necessário agora tinha um nome tão simples... e ela saiu para ver a chuva, para se preparar, afinal aquilo de nome simples viria inevitavelmente, depois dessas vivências ricas e bem sorvidas. A chuva era movimento vivo, molhava a paisagem, enquanto o chão ia drenando as sobras de tanta substância nova naquela abundância que lhe era dado ver. Ela vê, ela crê. Tudo pode ser de novo inédito. Desfazer-se nesse mar perene da receptividade é uma glória, tão certo como tudo o que existe precisa do amor."









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