modular é necessário







domingo, 27 de janeiro de 2013

A estética da contenção

por Isa Baccara, escritora

Os contos de Patricia Maês não podem ser lidos com olhos forasteiros. Ou seja, olhos contaminados pela realidade prostrada; por noções gastas acerca de poder, sensualidade, anima, animus, espaço, tempo, alteridade, subjetividade, objetividade. Livre-se das expectativas pautadas na literatura vigente, na escrita do estarrecimento; não é tratamento de choque, embora conte com rupturas inesperadas, com o elemento surpresa. O mundo a ser apreendido é o mundo dos sentidos, dos sentimentos, dos sensíveis, dos delicados. Aqui, as personagens não são apenas criaturas de papel, entidades fictícias, mas, ícones do mundo interno da autora e de leitores. Deste modo, personagem, autora e leitor se tornam ponte para uma travessia possível.
É um livro sem criptografias; sem fardos; sem cargas; nele belezas emergem das ruínas; e a vida soa leve porque os contos são calmos. Eles cedem às personagens e ao leitor a chance de recriar a vida e desejos no campo da imaginação, da arte. Na esfera onde chumbo vira pluma nada é proibido, pois, é terreno onde permissividades se manifestam livremente. A autora dispensa o texto complexo, encharcado e faz a sábia opção por uma linguagem clara que se contraponha ao tema – que já é, por si só, absolutamente vasto e complexo. O resultado é um texto sem bijuterias, sem o cheiro forte dos perfumes, sem rompantes verbais e, paradoxalmente, sem previsibilidades. O discurso direto, nada de exageros metafóricos ou entulhos verbais, abre fendas que servem como pontes levando ao silêncio do próprio leitor.
Ser sublime é um ato de coragem. Sempre foi. Hoje um tanto mais. “Vou escrever esta história pra provar que eu sou sublime”, como reafirma o poeta em “Tabacaria”. Eu disse a mim mesma, já no primeiro conto: "Vou ler e me ler neste livro pra atestar se sou sublime". Sim, é o que é: um livro sublime, no sentido mais profundo do termo. Porque tem a ousadia de trazer de mundos submersos condições humanas inutilizadas, descartadas; descarte que é causa da degradação que nos assola, e aqui estamos diante de um basta. Basta ao excesso de exposição que nos levou mais do que nos deu. Basta a princípios de liberdade que se perderam nos próprios fins e ao extravasamento que se deslocou da ideia matriz desembocando em valores completamente deturpados.
É um livro sensual; uma prosa que em sua raiz estilística exacerba o brado retumbante da poética de Adélia Prado: "Erótica é a alma". Porque mostra-nos, por meio da sugestão, que sensualidade não tem qualquer relação com o explícito, mas, com o sugerido. A sugestão é mais instigante, incita os sentidos e o desejo de descoberta.
O livro de Patricia é elegante, charmoso, delicado, rico em significados profundos, cheio de silêncios bem articulados. É uma escrita cuidadosa. Cuidadosa com o leitor, cuidadosa com as personagens, cuidadosa com uma escala de valores truncada no curso dos eventos. Falta ao mundo mais charme, mais gentileza. Patricia Maês sabe disso e nos dá um livro gentil, oferece-nos um jantar generoso, sem gula. É uma anfitriã preparada, zelosa. Acostumada a receber bem as pessoas.
Este livro, caro leitor, é uma casa muito bem decorada e carregada de zelos. Reduza o ritmo, dê a si mesmo um pouco de privacidade. Leia com a memória dos esquecidos, leia como quem sofreu uma amnésia; recrie seu tempo, espaço, seu ser no tempo e no espaço. Pressinta algo desgovernado no mundo, pressinta-se desgovernado. Pare o seu mundo e entre nele sozinho. Porque o seu mundo é só seu. Indivisível.

 

Um comentário:

  1. Impressionante, aqui, Isa convida e exige a presença, demandando, ao mesmo tempo, respeito ao entrar na casa.

    Ao entrar nesse livro, ao ameaçar pisar no jardim, vai invadir o território nada blindado, a não ser pela peculiar sensualidade e sensibilidade feminina que prenuncia de uma grande inteligência, de um raro talento.
    Nesse mix de curiosidade e de medo do incógnito, a sugestão de leitura promete.

    Em conhecendo a autora e seu propósito, garanto ser seu livro um raro instrumento de enriquecimento e de premiação, pois que trasmitimos o nosso código através do que expressamos, mas enquanto transformamos o mundo através da impressão que lhe causamos com isso, mudando o mundo em realidade.

    Essa responsabilidade de autor, de executor e promotor de destinos em que os ensina, é executada com coragem por Patrícia Maês, que tem todas as ferramentas, a bagagem e a destreza para colocar, deitar no papel, assim, transmitir, passar do seu código, da sua identidade, da sua experiência.

    Esse processo de se dar através do livro é programar a realidade, é mudar aquela, enquanto mudamos, tanto quem lê, como quem escreve, enquanto crescem, enquanto tecem e reconstroem a sua memória, nas experiências transmitidas.

    ResponderExcluir